Usar as palavras como ferramenta

5540463792_5ed995cd6a.jpg

Cena 1. Algum dia não registrado de abril. Talvez final de março. Segundo horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Não preciso esclarecer que Elias tem dificuldades na escrita e leitura. Diante do caos, eu dialogo. Peço pra ele olhar nos meus olhos. Ele desvia. Quando der o sinal você não sai, Elias. A gente vai ter uma conversa. O sino toca. Elias corre. Professora, o Elias fugiu! Pega ele, Rafael! Não. Deixa quieto.

Cena 2. Volta do intervalo.

Elias entra na sala empurrando os colegas. Senta na carteira e encontra minha carta colada com uma fita crepe em cima do seu caderno. Eu observo tudo pela fresta da porta, sem ser notada.

Elias, você pode até fugir de mim mas saiba que eu nunca vou desistir de você. Eu acredito em você. Sei do seu potencial. Com amor, professora Madu.

Elias sorri no canto de boca. Olha pros lados pra confirmar que ninguém viu aquele episódio. Guarda a carta na mochila e volta a fazer pose de bagunceiro. Eu sorrio sozinha e continuo meu caminho pelo corredor até chegar na sala do 7°G.

Cena 3. 11 de setembro de 2017. Quarto horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Eu continuo atendendo os alunos, carteira por carteira. Passo pelo Elias, abaixo e digo olhando em seus olhos: você pode ficar aqui quando der o sinal? É rapidinho, quero te mostrar uma coisa. Ele acena que sim com a cabeça baixa.

Cena 4. Fim da aula/dia.

Elias, eu poderia te levar até a coordenação. Poderia te dar uma advertência e você sabe os motivos, eu não preciso falar. Mas eu quero escrever uma carta de comprometimento junto com você. Pode ser?

Pode.

Ele responde baixinho. Em um tom de voz que eu desconhecia. Sua voz é mais doce do que eu imaginava.

Redigimos juntos a carta no meu caderno.

A partir de hoje, Elias se compromete com seus estudos. Ele será um aluno responsável com seu aprendizado. Ele fará as atividades em sala, mostrando todo seu potencial.

Professora, mas eu não vou conseguir. Eu não me acho capaz.

Você é.

Cena 5. 13 de setembro de 2017. Primeiro horário no 7°F.

Luiza vem correndo afobada balançando um papel.

Calma, Luiza. Não precisa correr assim. A professora vai passar em todos os grupos para orientar a produção dos panfletos da campanha. Espere que a vez do seu grupo já vai chegar.

Mas professora, a senhora precisa ver isso. Olha o texto que o Elias escreveu pra colocar no panfleto. Ele escreveu sozinho, disse que foi da cabeça dele.

“Usar as palavras como ferramenta. Lutar para acabar com o preconceito em todo o brasil”

Eu li e logo pensei que os verbos não estavam no modo imperativo, conforme havia orientado no roteiro da aula. O “B” do Brasil estava minúsculo.

Afastei esse pensamento e olhei pra Luiza que sorria olhando pra Elias que sorria olhando pra mim.

Usar e lutar no infinitivo do universo de Elias. O brasil em expansão para a maiúscula imaginação criativa do menino que duvidava da sua própria capacidade.

Fui até a carteira de Elias e dei um beijo em sua testa pequena. Sentei ao lado dele e juntos fizemos as mudanças necessárias para que a frase estivesse dentro do formato do gênero textual em estudo. Ele compreendeu.

Não se esqueçam de colocar a frase de Elias entre aspas com o nome dele logo abaixo.

Meu nome vai aparecer no panfleto, professora?

Lógico! A frase é tua! A palavra é a tua ferramenta.

Cena 6. 39 graus. Meu quarto é quase meio dia. Quase hora de ir pra escola.

Sentada na janela, fecho os olhos para reviver a lembrança. Sinto uma gota de suor deslizar lentamente da dobra do meu joelho até meu tornozelo esquerdo. Junto escorre uma gota de mar que desagua em minha boca. Abro os olhos pro mundo. Mesmo sem óculos beijo mais cores no meu quintal. Suspiro e faço minha citação do dia:

A palavra é minha ferramenta.

Caio DibComment