Eu estava na biblioteca junto com Maria. Um dia antes da avaliação final, ela apareceu pela primeira vez na aula do contraturno. Fiquei o bimestre todo pensando em diferentes estratégias para levar Maria e outros alunos nas aulas de “reforço”. Tive poucos resultados positivos, confesso. Porém, nessa manhã em que Maria me apareceu eu fiquei feliz.

Suficientemente feliz.

Gosto da ideia do suficiente. Que é bastante, que satisfaz. As vezes a auto cobrança bate na porta e a gente quer sempre mais. Querer o suficiente é meu caminho nesse final de ano letivo.

Pois Maria me mostrou sua suficiência toda. No início da aula ela estava com sono e desanimada. Pedi pra que ela e Rogério, o outro aluno que compareceu naquela manhã, revisassem o conteúdo da avaliação e me falassem qual era a maior dificuldade deles.

– Produção de texto, prof.

Disse Rogério sem nem abrir o caderno.

– Escrever texto é difícil demais, professora.

Completou Maria, deitando e se espreguiçando sobre os livros que estavam na mesa.

– Então tá, vamos ler uma história, buscar um pouco de inspiração e treinar nossa escrita criativa!

Eles não estavam acompanhando a minha empolgação, mas eu não me abalei. Se um aluno desanimado te contamina fica difícil reverter o processo e contagiá-lo com a curiosidade pelo aprendizado.

Entreguei os livros e pedi pra que eles acompanhassem minha narração. Li com entonação um conto de Sylvia Orthof: Vovô General e Vovó Vedete.

Maria gargalhava no meio da leitura. Eu comecei a rir enquanto lia também. Rogério esboçou um sorriso tímido. O mundo literário é, de fato, fascinante!

“Esta é a simples e bela história de amor de duas pessoas bem diferentes. Afinal, o mundo tem lugar para muitas gentes diversas.”

Conversamos sobre o conto, sobre a estrutura do texto, relembramos os elementos da narrativa, o passo a passo dos três parágrafos e combinamos o tema da produção: o encontro de duas pessoas muito diferentes que terminou em romance.

Rogério escreveu rápido. Sentei ao seu lado e corrigimos algumas partes do texto. Lembro-me que no início do ano ele não sabia nem o que era parágrafo. Acompanhar o avanço dos alunos é de uma gratidão incomparável. Enquanto isso, Maria escrevia algumas linhas e apagava. Olhava pra gente e reclamava:

– Vote, professora! É muito difícil!

Rogério se foi e ficamos nós, as duas Marias. Na verdade, éramos as três. Alguém havia deixado um livro de Maria Clara Machado naquela mesa em que estávamos estudando. A menina e o vento. Peguei o livro e sentei ao lado de Maria.

– Olha, eu não vou mentir pra você. Escrever é um processo difícil, mas é muito gostoso. A gente acabou de ler uma história muito legal e eu tenho certeza que aí dentro da sua cabeça também tem uma história legal pedindo pra sair. Coloca ela no papel! Sem medo de errar!

Ela me respondeu com um olhar típico de Maria. Aquele olhar de quem se convenceu de algo que no fundo já sabia. Pegou o lápis e mergulhou. Eu pulei logo atrás.

Me perdi e me encontrei nas aventuras de Maria, uma menina corajosa que desafiou o vento e viajou com ele pelo Brasil afora. As tias e a mãe chamaram a polícia, pois estavam desesperadas com o sumiço de Maria. De repente…

– Professora, eu preciso fechar a biblioteca.

A bibliotecária me trouxe de volta a Cuiabá. Olhei pro relógio do celular assustada. Ao meu lado estava Maria. Ela nem se mexia. Estava finalizando um diálogo no verso da folha. Tive que despertá-la:

– Maria, a gente precisa ir embora.

Ela concordou, ainda em transe literária. Disse que terminaria o texto em casa e me entregaria depois.

Saímos e fomos caminhando lentamente pelo corredor. Disfrutando e compartilhando em silêncio aquele estado de poesia.

Deixei a outra Maria lá em cima da mesa, na esperança de que uma Maria diferente viva esse encontro que termina em…

Nunca termina.