Educação e afeto podem estar muito próximos ou muito distantes no cotidiano da escola. Para debater esse tema, o SESC Campo Limpo reuniu Angelina Pereira, especialista em Biodança; Binho, que fundou o Sarau do Binho e outras ações culturais; e Tião Rocha, idealizador e diretor-presidente do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) para o painel “O caminho do afeto para a educação”.

Educação e afeto a partir de vivências integrativas

Angelina começou definindo a prática da Biodança. Segundo ela, um sistema que favorece o desenvolvimento humano através de vivências integrativas, induzidas pela música e dança. Desenvolvida por Rolando Toro, a prática valoriza “a musicalidade do universo, que deve existir dentro de cada ser humano. A pessoa perde sua identidade por estar dentro de um protocolo”, explica.

Educação e afeto estão muito presentes na prática. A base da Biodança tem muita relação o afeto, porque defende o “olhar de verdade” e o aprender com o outro, na troca. “O educador precisa de alguém que olhe para ele”, completa, dialogando com o público, formado majoritariamente por professores da rede pública, “eles não conseguem melhorar se sempre são rechaçados”. Conheça mais sobre seu trabalho no site da Escola Paulista de Biodanza.

“Professor é aquele que ensina, educador é aquele que aprende”

Tião RochaTião começou – e prosseguiu – sua fala de forma bem mineira: contando causos. Como, por exemplo, a história de sua tia, que era uma rainha. Na escola, nunca acreditavam quando ele contava isso, os professores logo falavam para ele ficar quieto e prestar atenção na história da realeza que estava sendo contada, sem inventar moda. Apenas após anos de faculdade que ele pôde se encontrar com a história de sua família-real: estudando sobre os reis do Congado e a cultura afrobrasileira.

Seguindo seus estudos, se formou, fez mestrado e doutorado, até se tornar professor. Com o tempo, porém, percebeu que “a faculdade queria ensinagem, e não aprendizado”. Se cansou das fórmulas e “decorebas” e pediu demissão. Naquele momento, ele pensou: “a partir de hoje quero ser educador. Professor é aquele que ensina, educador é aquele que aprende”. Tião criou, então, uma instituição que o ajudasse a aprender. Em seu Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, localizado em Araçuaí (MG) mostra que “é possível fazer educação fora da sala de aula”. A experiência foi retratada pelo documentário Quando Sinto que Já Sei, que colaborou no livro do Caindo no Brasil.

Tião Rocha já levou sua filosofia e seus ensinamentos para diversas regiões do país e hoje atua em comunidades rurais do Maranhão para desenvolver um centro de referência em educação do campo. Para ele “a educação é algo que acontece no plural. Não é algo que você tem, é algo que você troca. Educador é aquele que gera o processo de troca de aprendizado”.

“O sarau tem sido uma forma de `afetar` o outro”

Robinson Padial, mais conhecido como Binho, é poeta e organiza saraus na periferia há mais de 20 anos. Em 1995, conheceu Angelina e a prática da Biodança e foi nessa mesma época que começou a incluir a poesia no cotidiano de seu bar, na zona sul de São Paulo. Desde então, são muitas as atividades realizadas no território pelo Coletivo Sarau do Binho que “afetam” seus participantes de forma transformadora. Entre elas: a biblioteca comunitária Brechoteca, a bicicloteca – que distribui livros em pontos de ônibus da região – e a Felizs – Feira Literária da Zona Sul, da qual a conversa fez parte.

O encontro terminou com os professores presentes na platéia contando suas experiências dentro e fora de sala de aula. Eles dividiram os momentos que usaram do afeto para se aproximar de crianças e jovens e transformar suas vidas. Para finalizar a noite, os presentes participaram de uma vivência de Biodança, guiada por Angelina, com música e integração para aquecer a noite fria paulistana com muita compaixão e empatia.