TIÃO ROCHA E O CAMINHO DO AFETO NA EDUCAÇÃO

Na última quarta-feira, 15 de setembro, o Sesc Campo Limpo - zona sul de São Paulo - recebeu três nomes de peso para falar sobre "O caminho do afeto para a educação": Angelina Pereira, especialista em Biodança; Binho, que fundou o Sarau do Binho e outras ações culturais; e Tião Rocha, idealizador e diretor-presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, em Minas Gerais. Em um primeiro momento, não é óbvia a relação entre os três convidados, mas foi só iniciar a conversa para entendermos a reunião.

"Estamos em uma sociedade que glorifica o sofrimento"

Você já ouviu falar de Biodança? Angelina começou definindo a prática: um sistema que favorece o desenvolvimento humano através de vivências integrativas, induzidas pela música e dança. Desenvolvida por Rolando Toro, a prática valoriza "a musicalidade do universo, que deve existir dentro de cada ser humano. A pessoa perde sua identidade por estar dentro de um protocolo", ela explica.

A base da biodança tem tudo a ver com o afeto, porque defende o "olhar de verdade" e o aprender com o outro, na troca. "O educador precisa de alguém que olhe para ele", completa, dialogando com o público, formado majoritariamente por professores da rede pública, "eles não conseguem melhorar se sempre são rechaçados". Conheça mais sobre seu trabalho no site da Escola Paulista de Biodanza.

"Professor é aquele que ensina, educador é aquele que aprende"

Tião começou - e prosseguiu - sua fala de forma bem mineira: contando causos. Como, por exemplo, a história de sua tia, que era uma rainha. Na escola, nunca acreditavam quando ele contava isso, os professores logo falavam para ele ficar quieto e prestar atenção na história da realeza que estava sendo contada, sem inventar moda. Só após anos de faculdade que ele pôde se encontrar com a história de sua família-real: estudando sobre os reis do Congado e a cultura afrobrasileira.

Seguindo seus estudos, se formou, fez mestrado e doutorado, até se tornar professor. Com o tempo, porém, percebeu que "a faculdade queria ensinagem, e não aprendizado". Se cansou das fórmulas e "decorebas" e pediu demissão pensando: "a partir de hoje quero ser educador. Professor é aquele que ensina, educador é aquele que aprende", ele conta. E criou, então, uma instituição que o ajudasse a aprender. Em seu Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, localizado em Belo Horizonte (MG) mostra que "é possível fazer educação fora da sala de aula".

Já levou sua filosofia e seus ensinamentos para diversas regiões do país e hoje atua em comunidades rurais do Maranhão para desenvolver um centro de referência em educação do campo. Para ele "a educação é algo que acontece no plural. Não é algo que você tem, é algo que você troca. Educador é aquele que gera o processo de troca de aprendizado".

"O Sarau tem sido uma forma de 'afetar' o outro"

Robinson Padial, mais conhecido como Binho, é poeta e organiza saraus na periferia há mais de 20 anos. Em 1995, conheceu Angelina e a prática da biodança e foi nessa mesma época que começou a incluir a poesia no cotidiano de seu bar, na zona sul de São Paulo. Desde então, são muitas as atividades realizadas no território pelo Coletivo Sarau do Binho que "afetam" seus participantes de forma transformadora. Entre elas: a biblioteca comunitária Brechoteca, a bicicloteca - que distribui livros em pontos de ônibus da região - e a Felizs - Feira Literária da Zona Sul, da qual a conversa fez parte.

O encontro terminou da melhor forma possível, com os professores presentes na plateia contando suas experiências dentro e fora de sala de aula, dividindo os momentos que usaram do afeto para se aproximar de crianças e jovens e transformar suas vidas. Para finalizar a noite, os presentes participaram de uma vivência de biodança, guiada por Angelina, com muita música e integração para aquecer a noite fria paulistana com muita compaixão e empatia.

por Sabrina Coutinho