Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

Por Maria Eduarda Gomes. Do interior de São Paulo e atualmente está professora de uma escola pública na periferia de Cuiabá (MT). No Entrelinhas e laços, ela abre seu diário e nos conta histórias que mostram a importância das sutilezas na educação

- Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

- É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

- Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

- Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

- Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava... Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

- Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

- Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?

 

Caio DibComment