“Ser professor é trabalhar para promover diariamente micro transformações positivas na vida de cada um dos meus alunos”

Por Pedro Henrique Tenório de Sarvat, Professor da Rede Estadual de Campo Grande/MS da Escola Estadual Professora Élia França Cardoso e da Escola Estadual Senador Teotônio Vilella. Entre em contato com ele pelo e-mail psarvat@gmail.com

Há 178 dias, através do programa Ensina Brasil, eu pisava em sala de aula como professor pela primeira vez. Jamais imaginei que aquela segunda-feira significaria tanto para mim.

Quando abracei a oportunidade de trabalhar como Professor na rede pública, já imaginava os desafios que vinham pela frente. As dificuldades da Educação Pública brasileira não são novidade para ninguém: infraestrutura precária, ausência de recursos tecnológicos, realidades sociais e familiares complexas, defasagem idade-série e evasão em massa no Ensino Fundamental II e Médio.

Hoje eu vejo que não é isso que impossibilita o desenvolvimento do aluno. Dificulta? Sem dúvida, mas não é condição suficiente para impedir. Infraestrutura precária não impede o aluno de aprender. Ausência de recursos tecnológicos sofisticados muito menos. Realidades sociais complexas interagem de maneira imprevisível no ambiente escolar e você precisa aprender a conviver com isso.

Quem disse que lidar com o que é diferente é fácil? Não se trata de romantizar. Trata-se de entender e acolher o que é real. É admitir que você não é herói, mas que se você sair de lá, mais uma oportunidade de influenciar aquela realidade estará sendo deixada de lado. É perceber que o momento perfeito para começar algo é agora.

O primeiro grande ensinamento que a profissão me trouxe talvez tenha sido compreender que o ato de ser Professor exige resistência. É real e cruel a pressão que o Sistema exerce sobre os profissionais. Por sinal, não gosto de me referir ao Sistema como um ente imaginário. Refiro-me ao somatório de burocracias sem fim, comunicação hostil no ambiente escolar, disputas de poder desvinculadas dos objetivos de aprendizagem, dificuldades estruturais, distanciamento de algumas famílias do ambiente escolar.

É perceber que se você não exercer pressão no sentido oposto, permanentemente, o Sistema te devora. Piscou? O Sistema te engoliu. O segundo grande ensinamento é de que resistência, desvinculada de propósito, te transforma num peso morto. O Sistema exerce tanta pressão sobre você, que se você não exercer uma pressão maior no sentido contrário, já era.

Percebi que estava sendo engolido quando depois de 2 ou 3 meses em sala meus níveis de motivação caíram drasticamente. O brilho no olho dava lugar a uma sensação de frustração e a um sentimento de impotência diante daquela realidade.

Carregava comigo as dificuldades do dia a dia com o peso de quem assumia para si a responsabilidade pelas escolhas feitas por outras pessoas. Compreendi que meu objetivo é outro: é mostrar o “Caminho das Oportunidades”. É trabalhar para promover diariamente micro transformações positivas na vida de cada um dos meus alunos.

Foi então que escolhi fazer uma mudança importante na forma como eu lidava com essas questões. Optei conscientemente por exercer pressão através da construção de um personagem, que desde então representa a forma como eu lido com as dificuldades do dia a dia. Escolhi ser e interpretar alguém que a partir do momento em que pisa em sala de aula, torna-se a pessoa mais entusiasmada, alegre e contagiante do ambiente. Escolhi contagiar meus alunos pela alegria. Escolhi me aperfeiçoar na arte de motivar. Entendi que naquele contexto, ser o Professor que meus alunos precisam significa ser a pessoa que opta por contagiar pela presença integral, sincera, atenta e genuína.

Esses dias ouvi de alguns alunos do período noturno:

- “Como ele consegue, depois de trabalhar o dia todo, chegar com esse gás?” (Algo dito por jovens na faixa dos seus 16 anos que já trabalham durante o dia inteiro antes de ir à aula).

Na medida em que você pratica, misturam-se realidade e ficção. Hoje já não sei mais o que é o personagem e quem é o Pedro “de verdade”. O que deveria nascer como encenação foi incorporado ao que sou. Perdeu-se dentro do meu próprio Sistema. Junto com essa reflexão, percebo também que:

  • Professor precisa ser “fazedor”. Quer começar um projeto de informática e programação? Vai. Quer começar um Grêmio Estudantil? Vai. Deu errado? Corrige e continua.
  • Professor precisa acolher a incerteza a sua volta e mesmo com todas as pressões do Sistema, fazer acontecer.
  • Professor precisa se permitir errar muito. Acolher o erro e refletir sobre ele faz parte do processo.

É preciso saber parar, pensar e recomeçar. E que sensação boa a de aprender errando! Nesse 11 de agosto, Dia Nacional do Estudante, celebramos aqueles que buscam constantemente evoluir e ampliar seus conhecimentos.

A todos os Professores do Brasil, meu desejo de que jamais esqueçamos da mágica por trás dos “erros”. Nessa breve experiência na rede Pública, reconheço cada vez mais que quando incentivamos o desenvolvimento da curiosidade e interesse pelas coisas que existem e acontecem no mundo, estudar fica muito mais fácil, divertido e prazeroso!

Citando Milton Nascimento, em “Coração de Estudante”: “Há que se cuidar da vida; Há que se cuidar do mundo”. Aproveitemos esse dia para recarregarmos as energias diante das dificuldades do dia a dia e para mantermos vivo o Estudante que há dentro de cada um de nós, Professores.

Feliz Dia Nacional do Estudante!

 

Caio DibComment