REVISITANDO EXPERIÊNCIAS: VIVENDO E APRENDENDO HOJE

Desde a viagem e a publicação do livro do Caindo no Brasil em 2013 muita coisa mudou no país e na educação de modo geral. A continuidade costuma ser um dos maiores desafios para quem trabalha com projetos educacionais, principalmente aqueles que saem dos padrões. Estamos sempre imaginando: como será que está aquela iniciativa do livro hoje? Pensando nisso, vamos revisitar - ainda que virtualmente - essas experiências, e saber o que aconteceu com elas de 2013 para cá.

A escola hoje

A primeira iniciativa a passar por essa atualização foi a Vivendo e Aprendendo. A escola, administrada por uma associação engajada com a mudança da educação, foi uma das que mais chamou a atenção do Caio na viagem. Brasília, de modo geral, se mostrou - e se mostra cada vez mais - uma cidade em que a inovação está adentrando as escolas e faculdades.

De 2013 para cá a escola passou por diversas reformulações. Pablo Martins, por exemplo, era professor na época que o Caio passou por lá. Hoje, ele é o coordenador pedagógico e dividiu com a gente um pouco dessa história. "A Associação tem muitos fluxos que ocasionam mudanças a cada chegada de pessoas novas, com desejos e preocupações novas. Essas são mudanças corriqueiras que fazem a Vivendo ser o que ela é, baseada na reconstrução cotidiana", ele conta.

Comissões transformadoras

Algumas das mudanças significativas da escola passam por duas comissões formadas por associados: a de agrofloresta e a de bem-estar, higiene e saúde. A primeira "é uma comissão que está repensando nossa relação com o meio ambiente, trouxe o plantio e o ciclo da vida mais para próximo. Estamos fazendo uma composteira, temos uma agrofloresta que já proporcionou uma colheita, outros animais chegaram à Vivendo", conta Pablo. Já a outra costumava chamar apenas "higiene e saúde", Pablo nos explicou a mudança: "esse nome, bem-estar, veio com a energia da comissão, que fez diversas discussões com a associação como um todo, cine-debates, diálogos, oficinas de alimentaçãoo e aproximou as pessoas desse olhar mais sensível à alimentação consciente. Isso tem repercutido muito nos grupos que compõe a escola".

Volta às aulas na Vivendo

Perguntamos à Katia Lima, mãe super atuante de um aluno da Vivendo e Aprendendo, como seria a volta às aulas da escola.

Estamos na Vivendo desde 2015, nos encontramos nessa escola, tanto eu, tendo um espaço de participação claro e possível por meio da Comissão de Bem-Estar, quanto o meu filho que achou nas árvores seu lugar no mundo.
Passamos as férias da Vivendo, junto com a Vivendo: a colônia de férias com o educador e algumas famílias da Sala Verde, os encontros nos parques com os amigos, uma ida ou outra até a escola para olhar o andamento das reformas e para fazer algumas reuniões, não havia aulas, mas estávamos por lá.
Levamos a Vivendo até quando viajamos, a caixinha de férias nos fez lembrar de guardarmos lembranças para partilharmos depois. Encontramos muitos primos na casa da vovó e do vovô e levamos os combinados, o "não gostei" e, por que não, um pouco do caos organizado das crianças que a Vivendo nos faz ver com mais tranquilidade.

Para Katia, a volta às aulas foi gratificante - frente ao reencontro com os amigos e com uma escola reluzente, reformada - e também cheia de expectativas: uma reunião ampliada, marcada desde o semestre passado, discutiria os novos combinados da alimentação na escola e seria o fim de um longo ciclo de trabalho e reflexão sobre o tema.

Revisitando outras histórias

O livro do Caindo no Brasil contou um pouco sobre outros atores atuantes nessa escola, e estávamos curiosos para saber como eles estão hoje. A Diane, por exemplo, que era coordenadora pedagógica e bateu um papo com o Caio na época, hoje é educadora da rede pública. "Nós sempre desejamos que os educadores, ao saírem daqui, fossem para escolas públicas para fortalecer o sistema de educação, levar essa experiência", festeja Pablo. "E não vamos esquecer que a Diane é neta de Luis Carlos Prestes, revolucionária de berço!".

A Fatima, que tinha seu filho Pedro matriculado na Vivendo em 2013, hoje permanece próxima à escola: "ela é professora da Faculdade de Educação da UNB, é uma de nossas colaboradoras, grande parceira que traz seus alunos, faz observações, dá consultoria, promove muitas coisas".

Desafios de uma escola democrática hoje

"Acredito que atualmente não estamos num momento muito bom em relação ao sistema educativo", diz Pablo quando perguntado sobre o cenário da educação hoje. "Fora isso, de certa forma, a sociedade está mais consciente e aberta a propostas educativas educadoras. O assunto da educação inovadora, da autonomia na educação, da descentralização dos processos educativos, do jovem como protagonista, está mais presente no discurso pedagógico mais amplo. Mas ainda temos muito a caminhar."

E por falar nesses desafios, eles contam que a escola organizará em outubro o seminário “Democracia para que te quero - que partido queremos tomar para a educação”. A ideia do evento é posicionar a Vivendo e Aprendendo contra o projeto de lei conhecido como Escola Sem Partido. "Ser uma associação não é uma escolha meramente de gestão, tem a ver com a crença de uma construção coletiva que permeia o diálogo, a diferença, e uma clareza muito grande que não existe educação neutra. Toda educação é ancorada num projeto de sociedade, ancorada em ideologias, pressupostos, então o que está se discutindo hoje é uma ilusão", explica Pablo.

A Vivendo e Aprendendo amanhã

Sobre o futuro, o coordenador conta que desejam expandir cada vez mais os espaços de troca, sair do seu microcosmo e dialogar com outras iniciativas: "Temos feito parcerias legais, com uma escola de Cavalcante, por exemplo, que é uma associação também. Isso tem enriquecido muito nosso trabalho, então desejamos fazer mais pontos com outras escolas, sistematizar mais nosso trabalho. Queremos fazer mais publicações, seminários, para que a gente aprender com outras iniciativas e possamos doar o que a gente tem de bom". Pablo completa dizendo que esses são desafios além daqueles que já fazem parte do cotidiano da Vivendo: "como promover a participação, porque o Brasil é um país com pouca cultura de participação".

por Sabrina Coutinho