Respostas que completam

* Por Maria Eduarda Gomes

Maria Eduarda é do interior de São Paulo e atualmente está professora de uma escola pública na periferia de Cuiabá (MT). No Entrelinhas e laços,ela abre seu diário e nos conta histórias que mostram a importância das sutilezas na educação

Maria Eduarda é do interior de São Paulo e atualmente está professora de uma escola pública na periferia de Cuiabá (MT). No Entrelinhas e laços,ela abre seu diário e nos conta histórias que mostram a importância das sutilezas na educação

Júlia tem dificuldades na aula de português. Defasagem de leitura, escrita e interpretação. Júlia não é a única. Em uma sala com 32 alunos mais da metade se encontram na mesma situação. Corrijo. Não é a mesma situação. Cada aluno é um planeta distinto girando no seu próprio tempo de rotação e translação.

Tive essa ideia de relacionar o sistema solar com a sala de aula junto com meu amigo Danyllo, que é professor de matemática. O ápice da analogia foi a compreensão de que eu, professora, não sou o sol. Eu sou um objeto voador não identificado que perpassa por todos os planetinhas na tentativa de compreender o funcionamento mágico e único de cada biosfera. Inventamos assim uma nova galáxia: a sala de aula.

Na galáxia do 7° G, Júlia é um corpo celeste que, assim como os outros trinta e um, possui suas próprias limitações e sonhos. Posso vestir a roupa de pesquisadora, exploradora ou astronauta, mas nunca vou compreender as complexas características da vida no planeta Júlia. Contudo, eu tento com tudo que posso. Me aproximo com cuidado, faço perguntas, escuto, respeito, abraço e beijo. Com amor se ganha amor. Descobri muitas coisas da vida de Júlia. Muitas passagens tristes que não me sinto à vontade de revelar aqui. Ela me contou em segredo. O que consigo relatar para dar sentido a essa história sem romper nosso voto de confiança é que Júlia é uma menina de 12 anos. Negra. Moradora de um bairro periférico. Dona de uma trajetória de vida que carrega memórias desgostosas e impactantes no seu processo de aprendizagem. Pelo menos até agora.

Semana passada decidi adiantar a temática do livro e mudar um pouco a perspectiva trabalhada. Assim como todos os seres vivos, os professores têm que se adaptar constantemente as condições do ambiente. O capítulo trabalhado até então aborda como tema central a figura do herói. Presuma: nada de heroína até então. Quando falei que naquela aula iríamos falar de heroína um aluno foi logo dizendo:

“Eu sei o que é heroína professora, é uma droga.”

Me assustei, porque pra mim o primeiro significado de heroína é o da mulher heroica enquanto que pra ele é o de uma substância entorpecente ilícita. Preciso escrever algum texto sobre referências.

“Sim, Henrique. É uma droga. Mas não é dessa droga que vamos falar hoje. A gente não estava estudando vários textos sobre heróis? Então, hoje vamos falar das heroínas, das mulheres. Vamos falar especificamente de uma heroína que, diferente dos outros heróis que vimos até então, existiu na vida real.”

Aula passada os alunos tinham feito um exercício que caracterizava os heróis como “pessoas que gostam de fazer coisas além de suas forças”. Adiantei o capítulo seguinte, que traz a temática dos heróis da realidade, e passei um vídeo sobre a vida de Carolina de Jesus. Para quem nunca ouviu falar dessa mulher maravilha, deixo aqui o vídeo da aula, gravado e editado pelo PHCortês, youtuber de 15 anos dono do canal “Meus heróis negros brasileiros”:

Depois do vídeo vieram as perguntas de interpretação. Eu sabia que muitos alunos me chamariam na carteira. “Professora, não entendi. Como assim?” Independente das órbitas planetárias, a dificuldade de compreensão e interpretação é geral. Na tentativa de encontrar vida em todos os planetas, estruturei perguntas de níveis mais fáceis e outras mais complexas. Sempre exijo dos alunos a resposta completa dos exercícios, para ajudá-los a compreender o enunciado e a responder da melhor forma possível, pensando sempre que o leitor da resposta pode não ter acesso a pergunta e por isso precisa ser muito bem informado apenas pela resposta.

A primeira pergunta do quadro era: “Quem foi Carolina de Jesus?”

Eu esperava que meus alunos escrevessem uma resposta completa com o máximo de informações possíveis extraídas do vídeo, com adjetivos que caracterizassem Carolina e descrevessem ela como uma mulher que superou todas as barreiras impostas pela sociedade. Eu sabia que cada um escreveria isso com as suas próprias palavras. Cada planeta tem seu idioma e eu acho isso fantástico! Mas as vezes tenho que corrigir ou exigir mais. Faz parte do meu trabalho expandir os horizontes de cada planetinha.

Júlia, aquela Júlia do começo do texto, me chamou com muita empolgação.

“Professora, vem aqui ver a minha resposta!”

Júlia tinha escrito apenas três palavras.

 “Uma mulher negra.”

Eu suspirei ao ler a força daquelas três palavras.

“Ótimo, Júlia! Mas vamos começar a resposta daquele jeito bem completo que a gente já aprendeu? ‘Carolina de Jesus foi...’ ”

“Ah! Tá bom! A senhora quer a resposta completa. Fica aqui. Vou fazer e você vê se tá certo. Não sai daqui.”

Eu atendi o pedido e fiquei ali observando o movimento das mãos de Júlia. Ela pegou a borracha e apagou a resposta. Pegou o lápis e começou a escrever calmamente. Disponho a resposta de Júlia para você, leitora ou leitor, de forma pausada para que você se aproxime mais da minha experiência. Acompanhe:

“Carolina de Jesus

foi uma

mulher negra

Júlia olhou pra mim com olhos de lua cheia e sorriso de lua crescente. Eu disse sorrindo:

“Isso. Continue. O que mais?”

Ela voltou a olhar para o caderno e completou brilhantemente sua resposta:

e inteligente.”

“Carolina de Jesus foi uma mulher negra e inteligente.”

Fiquei chocada com a inteireza da resposta escrita por Júlia, sem nenhum erro ortográfico. Nenhuma resposta, por mais completa que fosse, substituiria aquela resposta escrita por Júlia e aquele sorriso que falou rompendo meu silêncio perplexo:

“Está completa, professora?”

“Está completa Júlia”

Escrevo agora essa minha resposta sem vírgula, porque Júlia não é vocativo que se separa por vírgula.

Júlia é sujeito dessa oração.

Sujeita completa, ainda que por um instante prestes a descompletar.

Sujeita a tantas situações da vida cotidiana que diminuirão sua plenitude mas sujeita também a nova possibilidade de não se sujeitar.

Júlia não sujeita, como Carolina.

(Peço uma pausa para completar e esvaziar os pulmões)

(Para transitar entre esse completar e descompletar)

E foi assim que o eclipse de Carolina de Jesus e Júlia me completou.