Relato de Gabriel Barbieri, professor de Química que quis compartilhar suas experiências conosco. Tem uma história para contar? Manda pra gente que ela pode ser publicada aqui.

Dando aula de química – sempre ao lado de professores de historia, geografia e outras ciências ditas “humanas” (como se houvesse alguma ciência acima do humano ou fora dele) – e ouvindo conversas de alunos sobre como o que viviam tinha reflexo nas aulas desses professores (e seus conteúdos) fiquei com a pulga atrás da orelha. “Será que isso poderia acontecer com as ciências ditas “exatas” ?

Como trazer uma molécula, um conhecimento, pra perto de um aluno? O que fazer para que a química e as outras ciências estejam presentes no processo de descobrimento e compreensão desse mundo que esta em constante transformação? Quem passou por um curso desta área sabe que uma das primeiras coisas que se aprende é a inexatidão das experiências.

Aulas de Historia são reflexões sobre a vida, sobre os valores que um “eu” traz e se percebe dia a dia. E quando se chega nas aulas de química, o que há? Teorias… teorias para explicar “quem é” o mundo, “como” ele funciona. Explicamos química orgânica falando de industria de tinta, de compostos tóxicos que nunca – e esperamos que nunca mesmo – teremos contato.

As ciências exatas poderiam ser um espaço de reflexão?

Busquei enxergar o mundo político, econômico, social. Percebi que a química – assim como as outras ciências – é fruto de homens de um momento histórico, de suas necessidades e buscas por saná-las, além de outras questões. Se na historia compreendemos o homem de seu tempo e lugar – Antiguidade, medievo, contemporaneidade, Ocidente, Roma, Grécia, França, Inglaterra – as moléculas, as explicações, as teorias cientificas surgiram e passaram a ser aceitas também a partir de um momento, perguntas, buscas e possibilidades de respostas de um período.

Faz mais sentido uma molécula existir quando entendo que os catalisadores surgem para atender uma demanda da indústria têxtil, que começa a se desenvolver e ganhar importância econômica. E que isso também está relacionado à centralização do poder, à unificação e formação de um Estado, por exemplo. Dessa necessidade consigo entender o surgimento de compostos tão distantes da minha realidade.

Entender a historia do surgimento de determinada teoria nos faz compreender porque tal conhecimento e tais descobertas foram importantes a ponto de estarem no currículo escolar. O conhecimento é produzido de acordo com um momento. Isso é feito a partir de todos os conhecimentos validados até ali e das necessidades que esse mundo sentem.

Assim, tiramos a ideia que muitos alunos têm da ciência como algo mágico, um milagre, uma espécie de mito do passado que devemos cultuar. O conhecimento está relacionado a uma série de fatores do mundo que o cientista faz parte (cultura, religião, política etc.), ele não é tão inocentemente livre como pregam os livros, que inúmeras vezes criam grandes heróis, quando, na verdade, o que houve foram discussões, debates, teorias divergentes para que se chegasse ate ali.

A conservação de alimentos que descobriu o Brasil

A primeira experiência que tive nesse sentido foi em uma aula sobre pressão osmótica e descobrimento do Brasil. Expliquei a importância do sal para os colonizadores da época: devido às características do processo de osmose – em que o solvente vai de uma solução menos concentrada para uma mais concentrada – não haveria a reprodução de bactérias nos alimentos devido à ausência de água.

O mundo é complexo, não adianta mais separar as ciências que falam de nós e nossos processos, e as ciências que falam de nossas técnicas. A ciência é onipresente, assim como as questões morais e sociais. Acredito que seja hora de pararmos de fingir que somos cartesianos, racionais ou passionais apenas. Precisamos buscar algo mais próximo do que diz Humberto Gessinger na canção “Esportes radicais” da banda Engenheiros do Hawaii: Sentir com inteligência / Pensar com emoção!