QUÍMICA TAMBÉM É ESPAÇO DE REFLEXÃO

Dando aula de química – sempre ao lado de professores de historia, geografia e outras ciências ditas “humanas” (como se houvesse alguma ciência acima do humano ou fora dele) – e ouvindo conversas de alunos sobre como o que viviam tinha reflexo nas aulas desses professores (e seus conteúdos) fiquei com a pulga atrás da orelha: “será que isso poderia acontecer com as ciências ditas “exatas” ?

Como trazer uma molécula, um conhecimento, pra perto de um aluno? O que fazer para que a química e as outras ciências estejam presentes no processo de descobrimento e compreensão desse mundo que esta em constante transformação?

Quem passou por um curso desta área sabe que uma das primeiras coisas que se aprende é a inexatidão das experiências, com os erros e valores de x tendendo a algum lugar.

Aulas de Historia são reflexões sobre a vida, sobre os valores que um “eu” traz e se percebe dia a dia. E quando se chega nas aulas de química, o que há? Teorias... teorias para explicar “quem é” o mundo, “como” ele funciona. Explicamos química orgânica falando de industria de tinta, de compostos tóxicos que nunca – e esperamos que nunca mesmo – teremos contato.

As ciências exatas poderiam ser um espaço de reflexão?

Nessa busca por enxergar o mundo político, econômico, social, com problemas de dialogo, desejos e questões humanas, percebi que a química – assim como as outras ciências – é fruto de homens de um momento histórico, de suas necessidades e buscas por saná-las, além de outras questões – morais, sociais, psíquicas.

Se na historia compreendemos o homem de seu tempo e lugar – Antiguidade, medievo, contemporaneidade, Ocidente, Roma, Grécia, França, Inglaterra – as moléculas, as explicações, as teorias cientificas surgiram e passaram a ser aceitas também a partir de um momento, perguntas, buscas e possibilidades de respostas de um período.

Faz mais sentido uma molécula existir quando entendo que os catalisadores surgem para atender uma demanda da indústria têxtil, que começa a se desenvolver e ganhar importância econômica. E que isso também está relacionado à centralização do poder, à unificação e formação de um Estado, por exemplo. Dessa necessidade consigo entender o surgimento de compostos tão distantes da minha realidade.

Entender a historia do surgimento de determinada teoria nos faz compreender porque tal conhecimento e tais descobertas foram importantes a ponto de estarem no currículo escolar.

O conhecimento é produzido de acordo com um momento, a partir de todos os conhecimentos validados até ali e das necessidades que esse mundo – e não só o cientista – sentem.

Assim, tiramos a ideia que muitos alunos têm da ciência como algo mágico, um milagre, uma espécie de mito do passado que devemos cultuar. O conhecimento está relacionado a uma série de fatores do mundo que o cientista faz parte (cultura, religião, política etc.), ele não é tão inocentemente livre como pregam os livros, que inúmeras vezes criam grandes heróis, quando, na verdade, o que houve foram discussões, debates, teorias divergentes para que se chegasse ate ali.

A conservação de alimentos que descobriu o Brasil

A primeira experiência que tive nesse sentido foi em uma aula sobre pressão osmótica e descobrimento do Brasil. Expliquei a importância do sal para os colonizadores da época: devido às características do processo de osmose – em que o solvente vai de uma solução menos concentrada para uma mais concentrada – não haveria a reprodução de bactérias nos alimentos devido à ausência de água.

O mundo é complexo, não adianta mais separar as ciências que falam de nós e nossos processos, e as ciências que falam de nossas técnicas. A ciência é onipresente, assim como as questões morais e sociais. Acredito que seja hora de pararmos de fingir que somos cartesianos, racionais ou passionais apenas, e buscarmos algo mais próximo do que diz Humberto Gessinger na canção “Esportes radicais” da banda Engenheiros do Hawaii: Sentir com inteligência / Pensar com emoção!

*Relato de Gabriel Barbieri, professor de Química que quis compartilhar suas experiências conosco. Tem uma história para contar? Manda pra gente que ela pode ser publicada aqui.