Alberto Caieiro, heterônimo criado por Fernando Pessoa, escreveu em um de seus mais famosos poemas que nem mesmo o Tejo – maior e mais importante rio de Portugal – era mais belo que aquele de sua aldeia, pois só no curso d’água local habitavam as histórias que acompanhavam sua vida.

Nas periferias da cidade de São Paulo, o argumento não é diferente. Por um lado, os diversos rios, córregos, riachos e afluentes que recortam os territórios evocam memórias, saberes e outras narrativas. De outro, protagonizam situações de dificuldade vividas pelos moradores como as frequentes enchentes.

Com esta percepção e buscando tornar as aulas da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) mais interessantes e contextualizadas ao cotidiano. A EMEF Carlos Augusto de Queiroz Rocha, localizada na zona sul da capital, começou um processo de escuta de seus estudantes.

“Percebemos que muitos não sabiam sequer o nome dos córregos que afetavam suas vidas, mesmo que morassem lá há 40 anos”, conta a professora Tania Uehara Alves. Nessa região periférica, ficou claro que não só os moradores, mas também os rios estão invisibilizados socialmente”.

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Alunos do EJA particiapam de estudo do meio do projeto “Um rio que passou em minha vida”. Eles analisaram o entorno do Córrego Zavuvus (Reprodução/Portal Aprendiz)

Da constatação, nasceu o projeto “Um rio que passou em minha vida”. O projeto tem a proposta de levar os conteúdos das diferentes disciplinas. O trabalho é feito dentro da perspectiva das discussões e memórias em torno dos cursos d’água do entorno da escola. Há especial destaque para três deles:  os córregos Zavuvus, Cordeiro e Apucas, todos pertencentes à bacia hidrográfica do Rio Pinheiros.

Assim, as águas foram utilizadas para entender porcentagens, estatísticas e proporções, ciclos hidrológicos. Os rios e a ocupação da cidade também adentraram a sala de aula por meio de manifestações culturais de diferentes naturezas. Textos de Mia Couto e Carolina de Jesus foram usados no projeto.

“Conseguimos fazer estudos do meio e percorrer toda a extensão dos córregos. Também fomos às casas dos alunos. Conversamos com seus filhos e netos e envolvemos as famílias no projeto”, relata Tania, que coordena o projeto.

Conscientização e afeto

Outro ponto trabalhado foi que, de forma geral, os alunos – muitos deles migrantes – não viam os córregos da região com o mesmo carinho que lembravam dos rios de suas infâncias, sinônimos de diversão e sustento. Sabendo da importância de um olhar empático para a conscientização e aprendizagem, o projeto buscou então tecer, de maneira interdisciplinar, relações entre os rios de agora e aqueles que ficaram na memória de cada um.

O processo histórico e político de urbanização das periferias também foi abordado pelo projeto com criticidade. Como resultado, os alunos passaram a ter um novo olhar para as enchentes que periodicamente assolam a comunidade. “O discurso inicial era de que elas eram culpa dos moradores que jogavam lixo na rua e nos córregos. Nosso trabalho foi mostrar que isso também contribui, mas que, na verdade, há um processo maior de descaso pelo qual a cidade passou”, explica Tania Uehara.

Outra estratégia bem sucedida foi utilizar a arte como ferramenta para reavivar as memórias dos alunos e valorizar suas identidades. “A população do bairro não se sente representada e nem valorizada, então trazer suas origens e identidades é uma ação de muita potência”, acredita Tânia. “Os alunos recuperam suas cantigas, reavivam memórias e trazem suas famílias para participar desse processo. É uma experiência profunda de conhecimento da própria história”, finaliza.

Territórios Educativos

O projeto “Um rio que passou em minha vida” foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio. O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida. Assim, integra os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz