Imagem de uma aluna da Escola Céu Azul agachada perto de um pequeno lago, colocando seu barco de papel para flutuar
Escola Céu Azul (Divulgação)
A educação está passando por um intenso período de transformações. E, em muitos lugares, o ensino busca cada vez mais promover uma experiência consciente e com mais significado. Foi a partir disso que surgiu o Roda Mundo. Um projeto de viagem que vai perpassar por alguns estados brasileiros em busca de práticas inspiradoras.
O projeto foi criado pela Elis Simões, pedagoga e educadora, em parceria com Diego Botafogo, fotógrafo, cineasta e vídeo maker. Eles pretendem visitar  propostas educacionais para buscar, registrar e aprender com essas experiências. Assim, seja em escolas formais, não formais ou outro espaço educacional, eles estão atrás de repensar a educação. Essa busca constante por alternativas educacionais que trabalhem com significado e engajem os estudantes é fundamental para manter o aluno na escola e ampliar as possibilidades para crianças e jovens.

O Caindo no Brasil conversou com a Elis para entender mais sobre essa grande jornada. Veja mais:

Quais foram as principais motivações que deram início ao projeto?

As motivações iniciaram a partir de questionamentos pessoais acerca da minha própria prática. Conforme surgiam os desafios e demandas enquanto educadora infantil, me deparava com inúmeras questões. Como, por exemplo, minha formação, as propostas das instituições e até com formas e possibilidades de “resolução” de determinadas questões.

Imagem de uma aluna da Escola Céu Azul brincando em poças de água
Escola Céu Azul (Divulgação)

A partir disso, me coloquei a pensar e estar mais sensível ao me deparar com uma ambivalência sobre o que eu acreditava e o que eu realmente executava na prática junto das crianças. Trabalhei com diferentes contextos e propostas, e assim fui me apropriando e avaliando o que realmente fazia sentido para mim. Ainda sim, por muitas vezes, devido demandas institucionais, pude me encontrar em um espaço de reflexão acerca de inúmeros questionamentos como “Para quem?”, “A quem estamos destinando nosso trabalho?”, ”Queremos atender a quem?”, “De que forma? “.

Todas essas questões sem mesmo entrar num âmbito romantizado da educação, mas sim num lugar de pesquisa, constatação e reflexão. Logo, a maior motivação foi meu olhar para o próprio trabalho.

Assim, através de muito diálogo, percebi a importância de criar novas referências e motivações acerca da educação. Em um longo período de pesquisas e cursos, me articulei com diferentes temas para ampliar meu olhar e ganhar clareza nas próprias inquietações. Decidi então buscar pelo novo. Não no sentido de novidade, mas na possibilidade um outro encantamento, num outro formato, com novos cenários e rostos.

Encontro-me com inúmeras questões que conversam com problemáticas trazidas pelo Diego, que em meio a tantos diálogos, encara a perspectiva de encontrar através de suas fotografias um novo olhar, uma outra experiência. Assim, tornar possível articular imagem – observação – registro pautado em seu trabalho.

Tem algum caso que despertou essa inquietação que vocês possam nos contar?

Os casos – digo em plural pois foram diversas vezes – giram em torno das tantas práticas que não foram destinadas às crianças. Do não respeito ao tempo de cada um e sim de uma mera prestação de contas de conteúdo. Das tantas vezes que tive que interromper determinado momento embutindo um novo que talvez não fizesse tanto sentido. Das formas e estratégias criadas em torno de um modelo de turma que não se sustenta porque todos são diferentes. Sobre o tempo de aprendizado e todo seu processo de significado que pode ter ficado embaçado por alguma prática; pois no nosso sistema hierárquico é dito que é o professor que decide a hora de parar e a de continuar. Por não dar voz todas as vezes que puder ou desejei dar voz!

Quais são as expectativas de vocês para essa jornada?

As expectativas são bem amplas. Visamos não somente conhecer onde esses espaços educacionais ocupam, como ter a possibilidade de troca entre diferentes culturas, incluindo seus costumes, hábitos, referências e propósitos. Queremos conhecer histórias e pessoas que estejam engajadas em refletir, pensar e discutir sobre a Educação atual. Principalmente a Educação Infantil, a qual me atenho mais no trabalho prático no decorrer na minha carreira.

Buscamos percorrer por espaços, vislumbrar ideias e partilhar conhecimentos. Desejamos encontrar projetos que estejam comprometidos com uma educação consciente e significativa.

A evasão escolar e a falta de engajamento do estudante na escola são problemas sérios no Brasil. Como vocês enxergam isso e como a viagem vai buscar soluções para essas questões?

Tentando entender as diversas questões encontradas no âmbito educacional e de acordo com algumas já vivenciadas, percebemos que muitas estão relacionadas ao pouco espaço de diálogo entre escola- família-aluno. A invisível zona de troca e a ausência do espaço que é dado como possibilidade de voz para os alunos reverbera em muitas questões. Não somente no aprendizado, mas como no desencadeamento de evasão e desinteresse na escola.

Nosso modelo educacional se encontra num cenário em que os alunos recebem de forma passiva o conhecimento. Ou seja, uma educação em massa, que tenta atingir todos por igual, visando uma padronização dos pensamentos e atitudes. Consequentemente, ela não suporta o poder crítico e dialógico dos alunos.

Compreendemos que enquanto nossas escolas forem “fábricas de alunos”, não encontraremos possibilidades delas serem vistas como um lugar potente. Afinal, lugares onde não há espaço de voz, discussão e aceitação das diferenças, não representam uma aliança para os alunos.

O projeto “Roda Mundo” busca descobrir onde andam essas brechas e onde podemos encontrar disponibilidade para troca. Assim, podemos pensar sobre essas questões, através dessa permuta de experiências. Afinal, cada lugar é composto pelas suas relações sociais e intrapessoais, e por isso podemos nos enriquecer profissionalmente e pessoalmente. Acreditamos que a comunhão de ideias engajadas em reconhecer esse espaço de expressão individual transmuta em benfeitoria para o corpo escolar.

Imagem de um aluno durante uma atividade com potes e grãos de feijão
Escola Céu Azul (Divulgação)

Qual foi o critério de seleção dos projetos selecionados no itinerário?

O critério foi iniciado pela curiosidade em conhecer espaços específicos que descobrimos através de leituras, vídeos e ou relatos de parceiros de trabalho. Através de conversas, sugestões e pesquisas acerca das propostas dos espaços educacionais, começamos a traçar um repertório ampliando algumas ideias. Além disso, através de uma lista disponibilizada pelo MEC sobre propostas inovadoras, buscamos acrescentar outros locais. Nos atentamos para as que buscavam uma postura, espaço físico, e relação descrita entre escola e família, dentre outros aspectos. Em suma, priorizamos compor uma listagem que contemplasse diferentes propostas pedagógicas. Alguns exemplos são o método montessori, waldorf, construtivista, educação viva, creche parental e comunidade escolar. Assim, podendo ter uma visão mais ampla, alongando e amplificando nossas lentes e possibilidade de troca e pesquisa.

A partir da lista feita, traçamos um melhor roteiro que contemplasse nossa disponibilidade de data e o melhor trajeto a ser realizado, abrindo brecha e flexibilidade para acrescentar ou retirar itens da mesma.

Nós acreditamos que o projeto pode ser um apoio e incentivo para muitas pessoas com as mesmas angústias que vocês têm sobre o cenário atual da educação. Vocês tem alguma dica para os educadores?

A dica perpassa num lugar de encorajamento e planejamento. Atualmente, nos encontramos em muitos impasses financeiros e de estabilidade relacionado à carreira profissional , sendo assim encontrando maiores dificuldades nos diversos projetos pessoais a serem realizados.

É uma grande conquista conseguir planejar e organizar tamanho projeto, mas também um árduo trabalho. Sobre o planejamento, uma boa ideia é trocar e dialogar com pessoas que já tenham realizado ações parecidas e que podem contribuir de alguma forma para sua execução. Em seguida, as pesquisas e leituras acerca do foco que busca, transformam as informações em maior norte para assim serem concretizadas em planejamento e roteiro.

O roteiro foi planejado com diversas brechas a fim de serem preenchidas com informações e visitas que somente estando no próprio local, acreditamos encontrar.

O processo de encorajamento foi consequência de tamanho planejamento. Vivemos cada etapa de uma vez, tendo a consciência e percepção gradativa dos impasses e conquistas para a realização da mesma. Vislumbramos também o estabelecimento de parcerias, que possam de alguma forma contribuir para uma melhor trajetória do Roda Mundo.

Vocês pensaram em alguma maneira de divulgar o projeto de maneira simultânea?

Estamos atualmente desenvolvendo uma página no Instagram para amigos e parceiros poderem acompanhar nossa trajetória. Além disso, a partilha de experiências e vivências com todos os interessados é muito importante. Nós acreditamos no poder da troca e das tantas transformações possíveis.

Assim que tivermos uma quantidade razoável de materiais, criaremos um blog no propósito também de dividir registros escritos e fotográficos, como um banco de dados, com a preocupação de investigar e disseminar nossas experiências. Agradecemos muito pelo interesse e pela atenção.

O contato do Projeto Roda Mundo é viagemrodamundo@gmail.com.