Professor da zona rural de Goiânia conta como levou 50 alunos para a livraria pela primeira vez

Por Cléssio Bastos, professor na zona rural de Goiânia (GO)

Será possível encontrar satisfação profissional em uma área em crise?” Dos meus 5 anos como professor, 4 foram embalados por esse questionamento e, depois de ter abandonado dois empregos promissores para trabalhar em escolas públicas, eu chegava a um grau elevado de desmotivação que me levava a uma conclusão negativa passa tal questão. Colecionei fracassos, convivi com a indiferença dos meus alunos e me senti de pés e mãos atadas pela falta de estrutura, me vi então diante da saída cada vez mais comum entre professores, desistir da carreira. E foi no auge desse marasmo que um universo novo se abriu diante de mim e dos meus alunos.
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Sou professor em uma escola de tempo integral na zona rural de Goiânia, a Escola Municipal José Carlos Pimenta. São cerca de 100 alunos do 1º ao 9º organizados em 5 turmas multisseriadas e, devido a essa organização, alguns professores respondem por 2 disciplinas, como é o meu caso. Ministro aulas de Língua Portuguesa e Inglesa do 4º ao 9º ano. As turmas são pequenas, uma grande vantagem. Mas dar aulas para duas turmas ao mesmo tempo é um grande dificultador, o isolamento cultural, geográfico e social, idem.

Tiago Iorc para ensinar inglês

Trabalhar com um público tão específico em um lugar tão singular, exigiu muito de mim, e por muito tempo eu não consegui estar à altura. Lembro-me do desafio de ensinar Língua Inglesa a uma turma de 4º e 5º anos. Como ensinar uma língua estrangeira a alunos de no máximo 10 anos oriundos de uma realidade rural e que, muitas vezes, não conhecem se quer o centro da cidade em que moram! Depois de meses de aulas desperdiçadas, resolvi apresentar as músicas do Tiago Iorc a eles, enquanto escrevia algo no quadro, deixava o som tocando as músicas em inglês, aos poucos eles começavam a cantarolar e, interessados em aprender a letra, as aulas passaram a ter uma razão de ser. Desse detalhe simples, o estudo de Língua Inglesa tornou-se o momento mais aguardado.

Essa primeira experiência de sucesso me deu o indício de um novo caminho a seguir, um ensino baseado em experiências. Ainda em 2015, levamos os alunos do 8º e 9º anos a recuperar notas e desempenho de leitura no último semestre com um projeto de leitura. Em uma avaliação diagnóstica, em um nível máximo de desmotivação, eles recusaram-se a responder as questões, resultando uma nota média de 1,5 entre cerca de 30 alunos.

Literatura para expandir fronteiras

Mesmo com o sucesso das aulas de Língua Inglesa, confesso que presenciar o fracasso dessa avaliação foi um baque decisivo, então desisti da escola pública e decidi retornar à carreira de professor universitário. Consegui um trabalho em uma universidade em Trinad&Tobago e criei um projeto para contar histórias de personagens que conhecesse durante esse período morando fora.

Mas antes de sair efetivamente da escola, precisei fazer algo por meus alunos para tratar os problemas que a tal avaliação evidenciou. Reconheci que a questão, nesse caso específico, era mais desmotivação que falta de conhecimento, escolhi um livro para me ajudar na tarefa de reconquistá-los para o processo de ensino, a biografia de Malala Yousefzai. Posteriormente avaliados, os alunos saíram do 1,5 para uma média de 8,5. Extremamente motivados, eles ainda realizaram uma campanha que arrecadou dinheiro para a fundação Malala.

Fazendo uso da rede de pessoas que foi sendo criada em torno do meu canal, o looking4heroes.org, em 2016 criei o projeto de leitura Alimente Heróis Com Livros, obedecendo ao princípio de aprendizado construído e permeado por experiências marcantes para os alunos. Foram 50 crianças pela primeira vez em uma livraria adquirindo seus próprios livros, com esse projeto, fomos premiados em um concurso nacional de incentivo à leitura.

"Mais uma turminha interagindo, em Inglês, com a Queenie, direto da Austrália. "Professor, eu preciso aprender inglês para falar com a Queenie na semana que vem". Acho que funcionou! :)"

"Mais uma turminha interagindo, em Inglês, com a Queenie, direto da Austrália. "Professor, eu preciso aprender inglês para falar com a Queenie na semana que vem". Acho que funcionou! :)"

Foi assim que saí da desilusão para a satisfação. Atualmente, alimento canais na internet com minha caminhada na educação. Colocar meu trabalho em uma vitrine me dá força pessoal e institucional, isso aumenta minhas possibilidades e me ajuda a ter mais credibilidade. Muitos projetos demandam contribuições, financeira, inclusive.

Através dos canais do Looking 4 Heroes eu tenho conquistado a ajudas. Em 2017 pretendo levar intercambistas para me ajudar nas aulas de Língua Inglesa e quero que eles fiquem hospedados nas casas dos meus alunos. Para isso quero organizar uma campanha de financiamento coletivo, meu trabalho exposto na internet ajuda nesse sentido.

Meu desafio para o novo ano é inovar mais e contar minhas histórias como professor a mais pessoas, penso que o que tem me inspirado pode inspirar outros. Quero dar palestras para ampliar minha rede de apoio aos meus projetos e discutir educação sob a ótica da sala de aula. Fala-se muito sobre educação, mas quase nunca o professor tem voz. O professor lá de dentro da escola precisa ser ouvido, normalmente são outros que falam por nós.

O que é ser professor em uma escola rural

Ser professor em uma escola pública rural é muito desafiador, tanto que muitos profissionais sucumbem a esse ambiente hostil e desistem de ser relevantes. A organização ineficiente, a estrutura precária e o currículo são outros desafios, inovar preso a um modelo tradicional, para não dizer ultrapassado, exige muito, mas tenho sorte de fazer parte de um time que escolheu preparar o campo pra mim.

Professores, coordenação e direção não medem esforços para me deixar à vontade e com o mínimo de espaço para criar e experimentar. Em um ambiente como o nosso, se cada um não sair dos limites básicos de suas funções, nos tornamos meros repetidores e os resultados não chegam. A qualidade que se encontra em escolas públicas pelo Brasil é a custo de profissionais que, individualmente, decidiram pagar o preço. Eu e meus colegas da Escola Municipal José Carlos Pimenta decidimos arcar com esse custo, isso nos trás satisfação.   

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