Por Adriana Couto (jornalista vencedora do prêmio Comunique-se 2016 e apresentadora do Metrópoles, na TV Cultura) para a revista GOL

Eu, uma menina negra na aula de história, tentando entender os próprios sentimentos. Na lousa, a lição do dia. Copio no caderno: “A escravidão no Brasil:. Uma menina negra que vive naquele que foi o último país a abolir a escravidão na América. Foram mais de 4 milhões de africanos escravizados. Entre a vergonha, a angústia e a revolta, travo uma luta comigo. Não quero me aproximar desse sofrimento.

Só muito tempo depois descobri que essa dor não era toda a minha herança. A conexão com a minha ancestralidade, com a formação do meu país, também se dava a partir da cultura e da resistência do povo negro.

Pena eu não ter descoberto na escola que no Brasil também se gestou o maior levante negro escravo do continente. Palmares cresceu e resistiu por cem anos aos ataques da Coroa Portuguesa. Comunidades protegidas por seus guerreiros e pela natureza da Serra da Barriga, atualmente na região de Alagoas. Será que dá pra voltar no tempo e escrever no meu caderno: “A resistência negra no Brasil colonial”?

Não. Mas dá para ouvir essa história contada por quem vivia e lutava no Quilombo dos Palmares. Comecemos a chamá-lo agora como os seus moradores: Angola Janga. Esse também é o nome do novo livro de Marcelo D`Salete, um romance histórico em quadrinhos que me aproximou das últimas décadas de luta de Angola Janga, que na língua bantu quimbundo quer dizer “pequena Angola”.

Angola JangaFicção baseada em mais de dez anos de pesquisa

Marcelo me contou que grande parte dos documentos mostra a visão de soldados, oficiais, clérigos, senhores de engenho ou governadores para os acontecimentos. Como ele queria o olhar dos palmarias, buscou também inspirações na cultura e na tradição dos diversos povos africanos que formavam essa comunidade negra.

Pelos lindos traços de Marcelo, consegui enxergar pessoas inteiras, de verdade e livres. Me fortaleço e me emociono com a dedicatória no livro: “Adriana, Angola Janga está a nossa espera”. No portal, você pode conferir o post Capoeira na escola é uma janela para a desconstrução do racismo.