O tratamento maciço das doenças infantis no planeta Kafka

O prólogo do livro A pedagogia na escola das diferenças: fragmentos de uma sociologia do fracasso, o sociólogo Philippe Perrenoud abre seu trabalho com um texto publicado por I. van Hill Hitch no Textes Libres Rapsodie, em 1982. No texto, o autor viaja para o ano de 2482 e narra como a sociedade coloca crianças em hospitais para o tratamento de uma grave doença que "não é mortal; porém, se não for tratada a tempo, impede que o indivíduo torne-se um adulto pleno". Vale ler até o final: o último parágrafo é incrível :)

Kafka é o único planeta habitado deste pequeno sistema escolar. Nele coexistem inúmeras espécies vivas. A espécie dominante conta com diversos bilhões de indivíduos, que formam sociedades diferentes, muitas vezes em conflito.

Nas sociedades mais ricas, todas as crianças parecem nascer com uma grave doença. Não é mortal; porém, se não for tratada a tempo, impede que o indivíduo torne-se um adulto pleno.

O tratamento é bastante longo e complicado, e não pode ser aplicado pelas próprias famílias. Disseram-me que, se cada criança fosse tratada em sua família por um médico, seria preciso um número tão grande de médicos que a produção de alimentos não seria suficiente. Por isso, as crianças são maciçamente internadas em hospitais. Para não perderem o vínculo com suas famílias, são colocadas em pequenos "hospitais-dia", próximos às suas casas. Neles, passam algumas horas pela manhã e pela tarde. No meio do dia, interrompem o tratamento para fazer uma refeição, ritual muito importante nessas sociedades.

Antigamente, apenas as famílias que quisessem iniciavam o tratamento de seus filhos. Muitas nem pensavam nisso ou não consideravam a cura necessária. Há cerca de 100 anos, porém, diante da insistência dos médicos, o tratamento tornou-se obrigatório. Os pais que se negam a tratar dos filhos são fortemente penalizados.

Por motivos que não consegui elucidar, o tratamento só é obrigatório depois dos seis anos de idade. Talvez seja para que a criança fique com a família no momento em que os pais estão mais ligados a ela. Talvez a internação de crianças muito pequenas seja complicada demais. Não sei. As autoridades aconselham que as próprias famílias comecem o tratamento o mais cedo possível. Elas recebem vários conselhos nesse sentido. Se estiverem preocupadas com a cura de seu filho, podem consultar um médico ou optar por uma hospitalização precoce a partir dos dois ou quatro anos. Não é obrigatório, mas as famílias que não tentam fazer nada antes dos seis anos são cada vez mais raras e são consideradas irresponsáveis pelo ambiente que as rodeia.

O tratamento estende-se por muitos anos, no mínimo nove. Os primeiros seis são exatamente iguais para todas as crianças, exceto para um número muito pequeno de casos mais graves, tratados por clínicas especializadas. Essa primeira parte, chamada de tratamento básico pelos médicos, é dividida em seis fases anuais. A partir dos seis anos, as crianças são hospitalizadas e passam a receber a primeira fase. Um ano depois, em geral, para a segunda fase, um ano depois para a terceira, e assim por diante. Se a doença não regrediu o suficiente no final de uma fase anual, o médico, de acordo com o chefe da clínica, pode decidir por renovar a aplicação da mesma fase de tratamento. Parece que a passagem direta para a fase seguinte não seria benéfica. Cada fase é concebida para ser eficaz em uma etapa definida da cura. Alguns aspectos do tratamento são comuns a todas as fases, mas outros aspectos relacionam-se apenas aos primeiros anos, ou só são desenvolvidos mais tarde.

Em cada uma das fases do tratamento básico – que dura de seis a oito anos, conforme a evolução da doença –, as crianças são confinadas a clínicos gerais, formados para aplicar todas as facetas do tratamento. Relataram-se que, antes de os tratamentos se tornarem obrigatórios, um médico assumia o cuidado de mais de 100 doentes, às vezes 150. Nesse caso, era auxiliado por uma ou várias enfermeiras. À medida que ocorreram progressos técnicos na produção de alimentos, tornou-se possível destinar um maior número de pessoas ativas à medicina. Na maioria dos hospitais-dia que visitei, confia-se atualmente cerca de 25 doentes a um médico, que se ocupa deles todos os dias durante o ano inteiro. Bem, quase todos os dias. Como o tratamento é bastante cansativo, é interrompido dois dias por semana e, às vezes, uma ou duas semanas consecutivas. Ouvi vários médicos queixarem-se de recaídas importantes nesses períodos. Outros se alegram por ter mais tempo para comer e dormir, ou mesmo para se formar em novas terapêuticas.

Falando com os médicos, pude constatar que muitos deles tinham a impressão de não serem tão eficazes quanto desejariam. Todos estão convencidos da necessidade de um tratamento de longa duração, mas alguns questionam a organização hospitalar. Eles percebem que as crianças enviadas para sua unidade de cuidados estão em condições muito diferentes do ponto de vista da regressão da doença. Em algumas, ocorre uma espécie de cura espontânea e elas poderiam limitar-se a um tratamento leve. Em outras, o tratamento começou desde a primeira infância e os progressos são satisfatórios. Em outras, porém, nada foi feito, e seu estado é preocupante. Porém todas as crianças diferentes são sujeitas à primeira fase do tratamento básico a partir dos seis anos de idade. Nem todos aproveitam essa primeira fase da mesma maneira, e as diferenças podem aumentar ano após ano. Uma minoria repete uma mesma fase, mas todos os médicos com quem falei não dissimularam seu ceticismo a esse respeito:

Se ao menos, dizem eles, pudéssemos modular o tratamento, individualizá-lo... Mas isto é impossível. Cada caso mereceria uma terapia adaptada a seu estado, medicamentos particulares. Porém, a administração aplica os mesmos medicamentos a todos. No início do ano, recebemos uma verba proporcional ao efetivo de nossos doentes. Não é possível obter algo diferente. Devemos obedecer a um plano de tratamento muito limitado, que deve ter sido respeitado no final do ano. Isso restringe a escolha dos métodos terapêuticos. Por outro lado, nossa liberdade sobre esse ponto é bastante teórica. Os donos e os chefes da clínica são partidários de certos métodos. E nossa formação limita-se a eles.

Se nos desviarmos deles, temos de assumir o risco. Todavia, o que mais nos falta é tempo. Se dedicássemos duas horas por dia a cada doente, em particular, o tratamento progrediria otimamente. Para alguns, seria suficiente uma hora, enquanto outros exigiriam três horas. A cura seria garantida em nove anos, ou em muito menos. Contudo, não podemos nem sonhar com isso. Imaginem: as crianças mais jovens vêm ao hospital seis horas por dia. Para 25 crianças, dá menos de 10 minutos por pessoa! Então, somos obrigados a tratar todo o grupo coletivamente, ou pelo menos alguns subgrupos. Alguns doentes são bastante autônomos para se cuidar sozinhos. Outros se ajudam entre si. Mas isso é raro. Vocês sabem, são crianças. A maioria não percebe a gravidade de seu estado. Durante a infância e a adolescência, elas não sofrem, a doença não tem consequências. Nem imaginam o que as esperaria se nada fosse feito. Algumas tentam até mesmo evitar o tratamento! É preciso reconhecer que isso não é divertido todos os dias...

Encontrei muitos médicos desestimulados. Alguns pensam que não é possível fazer nada com um número tão grande de doentes. Outros afirmam que, se o tratamento fosse organizado de outra maneira, seria possível tratar de todos em menos tempo. No entanto, dizem eles, a administração hospitalar está preocupada, acima de tudo, em aplicar a ordem e gerenciar esse imenso conjunto de jovens e médicos. Em particular, alguns administradores admitem que a divisão em fases de tratamento é discutível e que isso não é conveniente para todas as crianças. Também reconhecem que alguns aspectos dos tratamentos são inúteis para uma grande parte dos doentes. No entanto, preferem aplicá-los mesmo assim. Isso evita problemas com os pais, que estão muito interessados na cura de seus filhos. Quando os pais ouvem dizer que, em certo hospital, não se dispensa o mesmo tratamento que em outro, fazem um grande escândalo. Alguns médicos, amargos, consideram que muitos de seus colegas tiram partido da situação, aplicam sem maiores reflexões os tratamentos padronizados, redigem periodicamente seu relatório e dizem que, no fim das contas, quando uma doença é tão generalizada, não é possível curar a todos.

Outros, ao contrário, que são chamados de utópicos e sonhadores, dizem que, se as coisas mudassem e os tratamentos realmente fossem adaptados aos doentes, seria possível curar a todos, ou ao menos evitar, após seis anos de tratamento básico, que os doentes fossem orientados para caminhos diferentes.

Deve-se saber, com efeito, que no final do tratamento básico procede-se a um exame do estado de cada jovem doente, o que dá origem a um prognóstico. No caso de alguns, há muito que se perdeu a esperança de uma cura total. Por isso, eles são orientados para alguns anos de tratamento final que lhes permitirá apenas sobreviver na sociedade, com um status social inferior e menor acesso aos bens alimentares ou outros. Se a cura parece possível, ou mesmo certa, a sociedade consente, então, em realizar um esforço particular. Seis anos de tratamento "pós-obrigatório" - além do tratamento básico - garantirão àqueles que são dignos um status mais invejado e um maior acesso ao consumo.

Nem todos se resignam a essa hierarquia social e econômica baseada no grau de cura, e o sistema hospitalar é tema de infinitos debates. Essa sociedade totalmente medicada, cuja organização é regida pelas necessidades de cuidar de uma doença generalizada, é apenas umas das organizações estranhas que o viajante interestelar encontra quando se interessa pelas civilizações primitivas identificadas em galáxias longínquas. Sobre a própria doença, não posso dizer grande coisa. Ela não tem nada de comum com as raras patologias que subsistem em nosso planeta.

As poucas observações que consegui fazer fizeram-me lembrar algumas características da organização da nossa sociedade há 400 ou 500 anos. Acredita-se que, nos séculos XIX e XX, ainda não se dispunha de meios de aprendizagem instantâneos. A instrução das crianças preocupava muito os adultos, e eles criaram uma organização semelhante à da medicina no planeta Kafka. Um amigo historiador confirmou isso. Como observei que a cura de uma doença e a educação das crianças eram atividades muito pouco comparáveis, ele lembrou que os filantropos do final do século XIX gostavam de dizer o seguinte: "A doença mais grave, que ataca a todos e que deve ser tratada de forma prioritária, é a ignorância!" Naturalmente isso não passava de uma metáfora. De qualquer modo, nego-me a acreditar que, mesmo há tantos séculos, tenha podido existir na Terra um sistema tão absurdo para a educação das crianças! No entanto, nos 100 anos em que percorro o universo, já vi inúmeras sociedades estranhas!

1º de abril de 2482

O LIVRO

Perrenoud, Phillipe. A Pedagogia na Escola das Diferenças: Fragmentos de uma Sociologia do Fracasso. Porto Alegre: Artmed, 2011;

Caio DibComment