Criado em 2006 com a proposta de ser um canal de denúncia das ações predatórias que afetam a fauna e a flora no Distrito do Purupuru, e localizado no município de Careiro Castanho (Amazonas), O Brado é um projeto jornalístico transformador. O jornal nasceu na Escola Estadual Pedro dos Santos. A princípio, teve apenas duas edições. Isso por causa da falta de recursos e equipamento tecnológicos que auxiliassem a produção do jornal. A partir daí, O Brado ficou parado por dez anos. Ele foi retomado apenas com a chegada de Rojefferson, professor da escola.

Com uma nova proposta e feito com as mãos dos estudantes, eles retomaram o projeto. Estabeleceram um cronograma de ações e colocaram como meta inicial o registro do histórico das onze comunidades que compõem o distrito. O objetivo era reunir na escola um acervo que servisse como fonte de pesquisa para professores e estudantes. “Esse registro tinha como fonte inicial as informações contidas apenas na tradição oral, que vinha se perdendo após o falecimento dos comunitários mais velhos de cada uma dessas comunidades”, conta Rojefferson.

Além disso, a escola ainda não dispunha de um projeto que estimulasse o envolvimento dos estudantes em pesquisa de campo. A instituição também não oferecia nenhuma iniciativa que promovesse a autoafirmação de jovens. Isso faz com que os jovens valorizem cada vez menos a história de suas comunidades. Afinal, não se percebem como parte fundamental da construção histórica dessas localidades.

E, além de integrar toda a cultura local e promover o engajamento dos alunos, o projeto também promove a inserção em uma área nova e pouco abordada: o mundo acadêmico. Através do Brado, os alunos mergulham na iniciação científica. Eles aplicam metodologias para a pesquisa e produção textual. Os alunos ainda desenvolvem um senso crítico cada vez mais apurado para as questões socioambientais nas comunidades ribeirinhas do distrito.

Jovens e comunidade ribeirinhaA realidade da escola, da comunidade e dos alunos

Apesar do estímulo que o projeto oferece, a realidade dos estudantes da escola não é assim. A escola contava com poucos computadores no seu laboratório de informática, os quais os alunos nem tinham acesso. “Além disso, há pelo menos cinco anos não eram desenvolvidas atividades que estimulassem a capacidade criativa deles fora do ambiente escolar, e que explorassem espaços diferenciados para o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem”, conta o professor. “Percebi também uma enorme necessidade da construção de um espaço educativo onde os alunos pudessem contribuir efetivamente, e foi quando tomei conhecimento do projeto”.

A gestão da escola também percebeu a necessidade de um profissional engajado que retomasse o projeto e que desse uma nova cara ao jornal, tornando-o uma ferramenta de auxiliasse no envolvimento dos estudantes com práticas educativas dentro e fora da escola.

Contudo, enquanto os estudantes e a comunidade receberam o jornal com muita euforia e empolgação, a grande maioria dos professores recebeu a iniciativa com indiferença. “Poucos se interessaram em adotar o material como material complementar em suas aulas. Regras de acesso às ferramentas tecnológicas de propriedade da escola muitas vezes impediram tivessem autonomia na construção, produção e distribuição do jornal.”

Euforia e entusiasmo

Rojefferson conta que, inicialmente, aplicou uma atividade de produção textual e debate em todas as turmas. Desta maneira, identificava aqueles com maior interesse em pesquisa e argumentação. Então, para começar, ele reuniu cinco alunos, que construiram juntos a base do projeto e o plano de ação. “O entusiasmo foi imediato”, disse o professor. Eles também promoveram um concurso cultural de desenho e poesia que envolveu toda a escola e que teve uma recepção calorosa por parte de todos os estudantes. “Realizamos ainda uma enquete para avaliarmos o nível de interesse dos estudantes em participarem do projeto, e o resultado foi surpreendente, com um número altíssimo de estudantes querendo participar e saber mais sobre o jornal”.

O significado de um projeto transformador

Rojefferson conta que, em um ano de atividades, o projeto já alcançou resultados muito expressivos. O Brado já concorreu ao Prêmio Laureate Brasil – Jovens Empreendedores Sociais. Nele, foi um dos grandes favoritos para premiação (o jornal foi representado pelo aluno finalista Diego Moraes, e foi o terceiro colocado).

Jovens e comunidade ribeirinha

Eles já participaram da sexta edição do projeto de circulação de poesia autoral Declame para Drummond, comemorando os 114 anos do poeta. Também foram selecionados para o Programa Ciência na Escola (PCE), programa desenvolvido pelo Governo do Estado do Amazonas. Nele, os estudantes passaram a atuar como pesquisadores nas comunidades do distrito. E, entre muitas outras conquistas, também já participaram de uma palestra com o professor, escritor e historiador Aguinaldo Figueiredo (Acadêmico do IGHA – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), acerca do registro histórico de comunidades ribeirinhas.

No entanto, para alcançar todas essas vitórias, é preciso muito comprometimento e organização. Rojefferson conta que a equipe é divida em grupo interno e externo. Uma parte atua em campo, aplicando questionários de pesquisa durante a entrevista com os presidentes das comunidades ou moradores mais antigos. Os jovens registraram vídeos e imagens durante a pesquisa de campo. E a outra parte atua internamente, organizando as informações coletadas, os dados e registros, para então iniciar a produção das matérias que serão veiculadas no jornal. O professor ressalta que essas funções não são fixas, e os estudantes atuam em todas as funções. Isso é feito por meio de um rodízio de ações. Assim, todos podem conhecer todas as etapas de construção do jornal.

Jornal é feito mesmo com desafios

Para construir o projeto jornalístico, esses jovens enfrentam alguns desafios. A falta de energia elétrica, a falta de transporte fluvial e a falta de equipamentos novos para darem continuidade ao projeto são apenas alguns exemplos. No entanto, tudo isso é superado quando o resultado é enriquecedor: a comunidade espera ansiosa pelo jornal e pelos relato; os estudantes atuam no seu próprio território como pesquisadores e jornalistas. Além disso, eles se familiarizaram com recursos tecnológicos usados como ferramentas pedagógicas.

O jornal O Brado foi usado como leitura complementar em 6 turmas do turno matutino e vespertino. Já foram produzidos uma média de 150 exemplares do jornal por edição. No total, mais de 600 exemplares distribuídos tanto na escola quanto nas comunidades.

Dica de livro

Se você se interessa por educomunicação, vai gostar do livro Educar pela Mídia, de Paulo Freire e Sérgio Guimarães.