A terceira edição do Seminário Internacional de Educação Inhotim, que aconteceu em setembro de 2016. O encontro reuniu profissionais de diversas áreas para falar das “Experiências em Trânsito” na educação. A seleção multicultural dos palestrantes enriqueceu o evento, trazendo vivências e pontos de vista diferentes.

“O Brasil tem tudo o que precisa, mas não percebe”

José Pacheco deu início ao encontro fazendo uma provocação à plateia: “o que vocês querem saber?”. Já percebeu o quanto paramos de fazer perguntas conforme vamos crescendo? Foi essa a reflexão que ele levantou. Porém, a frente ao silêncio do público ainda tímido, acionou o plano B e contou algumas de suas histórias. O professor fundou, em Portugal, a Escola da Ponte, que promove educação humanizada e fora dos padrões tradicionais. Enquanto falava para os participantes do seminário, seu projeto completava 40 anos do outro lado do oceano. E ele estava perdendo essa festa?

“Percebi que a pior coisa é um velho que sabe muito entre um monte de jovens que sabem muito mais”, ele explica. A afirmação é uma justificativa sobre como deixou a Ponte nas mãos de jovens que foram seus alunos. Depois disso, decidiu vir ao Brasil continuar propagando o que aprendeu por lá. O Projeto Âncora, em Cotia (SP), é um dos resultados de sua vinda. A escola, que começou a atuar através da arte há 5 anos, já ajudou muitas crianças e jovens com risco de evasão escolar e em situação de vulnerabilidade social por meio do desenvolvimento de talentos e provou que escola não é apenas um edifício. “Escolas não são prédios, escolas são pessoas”.

O pedagogo defende uma educação que valorize a autonomia do estudante. Pacheco está envolvido em centenas de projetos espalhados pelo Brasil. Sua maior preocupação é que uma educação de qualidade chegue a toda a população, como manda a lei. “Não é um milagre, é técnica também. O Brasil tem tudo o que precisa, mas não percebe. É no Brasil que está a surgir a nova educação do mundo”, defende ele, provocando comoção na plateia.

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“A intervenção urbana existe para nos deslocar”

À tarde, Natacha Costa subiu ao palco para fazer uma verdadeira proeza: apresentar os 19 anos de história da Associação Cidade Escola Aprendiz, que revolucionou o bairro da Vila Madalena, na capital paulista, e inspirou outros tantos bairros a fazer o mesmo. O Aprendiz começou em 1997 a partir da preocupação com dois temas: a escalada da violência em São Paulo e a valorização da adolescência. O grupo desenvolveu projetos para embelezar regiões obscuras do bairro – como o, agora famoso, Beco do Batman – e aproximar as crianças e famílias aos espaços culturais da Vila Madalena.

A Associação passou a trabalhar em todo o bairro, difundindo a ideia de bairro-escola, de uma educação que seja um projeto de sociedade e cidade. Suas ações partiam da valorização do estudante e da ocupação do espaço público. Ela também pressiona o governo para desenvolver políticas públicas. Não demorou para que essa luta fosse mais longe. Ela chegou à defesa da Educação Integral, que ganhou força com a criação do Centro de Referências na Educação Integral.

Dando voz para quem faz

O dia começou com o professor Pacheco dizendo que a escola é feita por pessoas e terminou, justamente, dando voz para essas pessoas. As professoras Liete, Nivia e Gizlaine, que participaram do programa do Inhotim “Descentralizando o acesso”, contaram suas experiências. O programa que levou professoras da escola pública para uma visita guiada ao museu de arte contemporânea e, depois, os alunos. Cada uma mostrou como a visita foi interpretada e utilizada dentro de suas salas de aula e na criação de projetos envolvendo toda a escola. É possível navegar pelos projetos desenvolvidos por essas educadoras no site da rede educativa do Inhotim.