*Artigo escrito por Jean Sigel, especialista em Marketing, Comunicação e Inovação, e co-fundador da Escola de Criatividade em parceria com Guilherme Fernandes, mestre em economia, estudioso, entusiasta da Educação Inovadora e sócio da Escola de Criatividade. Os profissionais colaboram voluntariamente com o Instituto GRPCOM no blog Educação e Mídia.

Escola Maria Peregrina
(Reprodução/Gazeta do Povo)

Coragem. Se fosse necessário responder a “velha” pergunta de como definir a Escola Maria Peregrina em uma só palavra esta certamente seria a nossa escolha.

Não que lá não exista muito planejamento, amor, consciência, autonomia, vontade e criatividade. Isso tudo está presente e visivelmente percebido nas expressões dos tutores, professores, alunos e dos fundadores. Mas a coragem de iniciar e manter até hoje a escola é marcante. Não é qualquer grupo que consegue conduzir uma escola no interior de SP sem mensalidades. E que ainda adota a pedagogia de projetos e é chancelada pelo próprio José Pacheco. E que também realmente ouve e inicia seus trabalhos com base nos interesses dos alunos e com o envolvimento das famílias e comunidade.

A liberdade para escolha do tema de cada projeto é uma das características marcantes da Maria Peregrina. Liberdade essa que traz desafios diretos aos tutores da Escola. Afinal, eles precisam ser humildes o suficiente para reconhecer que não são experts em todos os assuntos. Muitas vezes vão aprender tanto quanto os alunos. Após a definição do tema, os alunos escolhem os tutores para acompanhá-los e orientá-los durante o projeto. Depois, eles elaboram perguntas, muitas perguntas norteadoras que vão dar o caminho para o início da pesquisa e descoberta. O universo de pesquisa está nos livros, na biblioteca da escola, na internet e também na comunidade nas visitas fora da Escola. Ou seja, o velho sonho da Escola que não se restringe aos seus muros e mostra que a aprendizagem pode estar em qualquer lugar.

O processo da Maria Peregrina

Nos chamou bastante atenção como todo o processo é muito bem desenhado. A começar pela utilização das inteligências do cientista Howard Gardner como pilares para os projetos. Eles avaliam as 8 inteligências múltiplas: linguística, lógica-matemática, espacial, musical, corporal-sinestésica, intrapessoal, interpessoal e naturalista. E o educando, em conjunto com o tutor, define como o conteúdo que será estudado se encaixa nas mesmas. São as áreas de conhecimento “tradicionais” (matemática, física, química, biologia, etc ) que farão parte de cada uma das inteligências. A partir disso, os professores especialistas de cada área entram, orientam, ensinam e criam exercícios, avaliações e desafios aos alunos dentro de cada tema escolhido. É o reconhecimento, em base teórica, de que cada um possui seu potencial e sua característica. E que ter a mesma idade não significa os mesmos conhecimentos e mesma velocidade de desenvolvimento e aprendizado. Existe um planejamento e cuidado que vai muito além da escolha da melhor apostila para aplicar o conteúdo pré-definido como ocorre na maioria das escolas do país. E só para deixar claro, apostilas passam longe da Maria Peregrina.

Ouvir dos próprios alunos, que já são excelentes RPs, sobre o funcionamento do Ensino Médio nos deixou muito impressionados. Sobre liberdade, o quanto gostam de lá e a experiência muito positiva com o treinamento para o vestibular também. Mais uma comprovação de que a autonomia, comunicação e curiosidade desenvolvidas desde pequenos formam alunos mais capazes de sobreviver e inovar no mundo atual. Aliás se há uma palavra que se sobressai lá é autonomia. Esse é um dos grandes mantras da escola.  E isso na prática acontece lá dentro e fora dela com os projetos dos alunos ganhando asas. A partir dessa valorização dos alunos e seus conhecimentos, o engajamento estudantil é muito presente.

Coragem e comunicação aberta

Educadores da Escola Maria Peregrina
(Reprodução/Gazeta do Povo)

A coragem da escola é própria. Um exemplo provocador à muitas escolas e educadores, a Maria Peregrina aposta na essência de cada criança e adolescente. Na vontade da descoberta, no desejo de aprender, trabalhar e brincar junto. E também na comunicação aberta e afetuosa com pais e professores, no estímulo a autonomia com responsabilidade e nas relações humanas. Uma escola onde seu diretor fez mestrado para medir a felicidade de seus alunos e professores. Que acredita na singularidade de cada criança e estimula seus canais de expressão à partir de ideias e projetos colaborativos. O que aprendi? Como e Por que? O que queremos descobrir de novo? O que já sei e posso compartilhar? São apenas algumas das perguntas dos inúmeros projetos desenvolvidos pelos próprios alunos e que são tutoriados, apresentados, avaliados e compartilhados.

O sucesso da Maria Peregrina em ensinar os alunos a aprenderem e a interagir, a formar jovens curiosos, criativos, comunicativos e transformadores é encorajador. Especialmente diante de um sistema que pouco muda ao longo dos anos – o sistema educacional. A coragem da Escola está muito mais em se expor e inovar diante de pais, mães, educadores, pedagogos e uma sociedade que ainda resistem às mudanças e exigem o mesmo ensino de 30, 50 anos atrás do que em apresentar algo novo às crianças e jovens. Jovens aceitam, mudam e inovam rapidamente. Enquanto nós adultos não aceitamos a inovação porque simplesmente a mudança dói e dá trabalho. Inovação acontece apenas quando a aceitamos, quando temos coragem e realizamos. Um super estímulo para todos aqueles que como nós acreditam em uma educação que pode sim ser diferente do convencional, mais criativa e encantadora.

Matéria publicada pela Gazeta do Povo.