Cao Hamburger, cineasta, roteirista conhecido por diversas produções, conversou com a revista Educação sobre seu último trabalho na televisão. Ele foi um dos responsáveis pelo sucesso da última temporada de Malhação, da Rede Globo.

A novela teve uma audiência média de 27 milhões de pessoas, o que não acontecia nesta faixa de programação desde 2009. Na entrevista, ele reafirmou seu compromisso de denunciar o apartheid que separa alunos de escolas públicas da “elite” privada. A maior emissora do país comprou a briga: já no final da temporada de Viva a diferença, a Globo usou o a novela para lançar a campanha Você é o público da escola pública. Confira parte da entrevista realizada pela revista Educação:

Cao Hamburger posa para foto com cinco atrizes da novela Malhação
Foto: divulgação

A última temporada de Malhação (Viva a diferença) foi sucesso de crítica e público fazendo uma defesa aberta por uma educação de qualidade. Você tinha objetivos claros de como fazer essa abordagem ou ela foi se construindo durante o andamento da novela?

Antes de começar a escrever, pesquisamos bastante as escolas públicas e privadas e tive ótimas conversas com educadores de diferentes especialidades. Além disso, sou de família de educadores, desde minha avó paterna, passando pelos meus pais — que são físicos e se dedicaram muito à educação por entender que esse também é um papel importante dos cientistas na sociedade —, até minha esposa e minha filha, hoje professora na rede municipal de São Paulo.

Minha percepção é que tem muita gente pensando a educação no Brasil, mas pouca discussão pública. A sociedade não está discutindo e não abraçou essa questão que, do meu ponto de vista, é o assunto mais importante para o Brasil hoje. O único caminho para o Brasil se tornar um país decente.
A elite econômica pensa apenas em qual escola particular vai colocar seus filhos. A população que frequenta a escola pública raramente participa e opina sobre os rumos do ensino no país.

Essa percepção me fez decidir que a educação, em especial a pública, seria o tema mais importante da novela. Mesmo que, muitas vezes, tratado como pano de fundo. Na minha opinião, a sociedade precisa abraçar a questão da educação, mais especificamente do ensino público, como prioridade. Mais de 80% das crianças e jovens brasileiros estão em escolas públicas. Teríamos de ter um movimento de toda a sociedade pela educação. Só assim, os políticos e governantes tratariam a questão como deveriam.

Você estudou em escolas públicas e também em privadas consideradas de elite. De que forma você trouxe a experiência pessoal para essa temporada de Malhação?

Foi muito importante minha experiência escolar na elaboração do conceito e na condução da história. Às vezes de forma inconsciente, às vezes aproveitando lembranças dos dois universos.

A novela não escondeu uma torcida pela escola pública. No final, há uma aliança simbólica com a escola particular. Você acha que esse intercâmbio é realmente possível?

Nas pesquisas, soube de algumas parcerias de sucesso. Mas a posição explícita da novela pela valorização da escola pública é pela constatação de que esse é o único caminho possível para o Brasil. Nesse sentido, se as parcerias com as escolas particulares forem positivas para
as escolas públicas, que se multipliquem.

Durante esses meses, que tipo de retorno você recebeu de professores, pais e alunos?

Muito positivo. Acho que porque tentamos mostrar a importância da escola na vida dos alunos, a importância da qualidade e comprometimento dos professores, educadores e demais profissionais dentro da escola. E, no caso da escola pública, não escondemos os problemas, mas também não contribuímos para sua estigmatização. Mostramos a importância e as qualidades do gigantesco sistema de ensino público brasileiro.

Você já declarou que a divisão entre escolas públicas e privadas no Brasil é um “verdadeiro apartheid”. Você poderia desenvolver esse raciocínio e apontar saídas?

apartheid é claro. Basta visitar as escolas e ver que nas particulares só está a elite social. Na escola pública está a maioria da população. Alguns bolsistas furam esse bloqueio, mas é muito pouco. Na minha opinião, a separação da sociedade nesse grau, desde a infância, é muito perverso para o país. A dita elite vive em uma bolha, não convive com a maioria da população, não conhece o país.

Por outro lado, a maioria da população estuda em condições, na maioria das vezes, piores que a elite e sonha com a ideia de ir para o éden das escolas particulares. Muitas vezes os pais se esforçam e pagam uma escola particular mais barata, e de baixa qualidade de ensino, só pelo status. A elite apartada da sociedade gera distorções e conflitos. Gera preconceitos e acentua a desigualdade. Uma democracia não está completa sem que toda a população possa ter uma educação do mesmo nível.

Como já apontei nas respostas anteriores, para mim, a única saída é uma tomada de consciência da sociedade como um todo para a questão do ensino público. E essa consciência se transformar em uma ação conjunta de elaboração e execução de um plano que faça a imensa estrutura já instalada receber as condições de se tornar tão boa, ou melhor, que a rede particular. Para isso acontecer mais rapidamente, talvez ajudasse se a classe média e alta voltasse a frequentar a escola pública e ajudasse nesse processo. Já estou fazendo campanha para que meus netos, quando nascerem e estiverem na idade, frequentem a escola pública.

Matéria adaptada da Revista Educação. Confira a entrevista completa aqui.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação Cao Hamburger: ‘A sociedade precisa abraçar a questão da educação, mais especificamente do ensino público’, do repórter Marco Antonio Araujo para a Revista Educação.