Um livro sobre gênero, educação e periferias que queria sair do mundo acadêmico e entrar nas escolas do Brasil. Essa é a breve história de É de menina ou de menino?. A publicação do mestre em Ciências Sociais João Martins busca tirar o tabu das conversas sobre questões de gênero com uma linguagem simples, mas acompanhada de bagagem teórica de anos de pesquisa. O Caindo no Brasil via sortear um exemplar do livro no Instagram. Clique aqui para saber mais.

Qual a sua história?

João nasceu na zona leste de São Paulo, mas também teve parte da sua vida na Zona Norte da cidade. O pai era trabalhador informal e a mãe dona de casa. Ele sempre viveu em regiões periféricas e conviveu com serviços públicos de qualidade desafiadora. Estudou, por exemplo, numa das piores escolas do bairro do distrito do Tremembé. Mesmo assim, sempre foi um jovem engajado.

“No meu terceiro ano eu lembro que a UNESP estava com um projeto de oferecer isenção do vestibular. A escola não divulgou porque achava que ninguém se interessaria. Então, me juntei com amigos e 10 pessoas se interessaram. Eles fizeram uma seleção e consegui ficar entre os quatro colocados. Quando vi que consegui a isenção, comecei a estudar. Fui conversando com professores e uma professora de literatura”, relembra.

Meses depois, ele estava na UNESP Araraquara cursando Ciências Sociais. No entanto, o ingresso no ensino superior não foi fácil: “Passei na lista de espera e quando cheguei já tinha perdido aula, perdi os processos da bolsa de permanência. Não consegui trabalho e tive que voltar para São Paulo. Naquele ano, fiquei 8 meses no cursinho popular de Piracicaba e fiz a prova da UNICAMP”. No teste, ele também passou e, enfim, ingressou no curso de Ciência Sociais.

“Na UNICAMP pude conhecer outras realidades e entender a questão de gênero. Cada vez que ia me entendendo melhor, ia tendo mais interesse teórico para estudar gênero e sexualidade”, ele explica. Esse interesse ultrapassava a sala de aula. Em um trabalho paralelo que conseguiu para pagar as contas, João trabalhava com recreação infantil e começou a identificar os marcadores de gênero nas crianças. Afinal, existia brincadeira de menino ou de menina?

Do segundo ao quinto ano da faculdade, o estudante se aprofundou no tema nos estudos e também participando de grupos de debate. Em seguida, ingressou no mestrado na UFSC. A tese de conclusão desta etapa acadêmica resultou na base inicial do livro É de menina ou de menino?.

Quais temas o livro aborda?

A publicação é dividida em quatro frentes. Na primeira, João aborda como se deu sua inclinação pelo tema. “Na antropologia a gente tem uma perspectiva de que as escolhas pelos temas não são neutras. O que existe é uma objetividade no sentido de que existem metodologias para trabalhar os temas. Minha escolha está ligada à minha trajetória e aos meus interesses, mas a metodologia que uso é objetiva. Não tô trazendo minha experiência pessoal e generalizando no texto, trago reflexões científicas”, conta.

Em seguida, fala sobre o contato que teve com as escolas que analisou e como foi a entrada em campo. Ele explica que foi por meio do brincar das crianças que começou a entender os principais marcadores de gênero existentes e os pontos de vista para compreender a dinâmica de gênero na periferia. O autor aborda profundamente esse tema na terceira parte do livro.

Por fim, ele analisa como a violência presente nas periferias produz as expressões de gênero. Ele explica: “na periferia, o tráfico é muito forte. Esse tipo de coisa é muito relacionada com identidades de gênero. O que são masculinidades hegemônicas? A ideia desse termo na periferia é diferente dos outros lugares. O modelo que temos está muito pautada num modelo europeu (classe alta, branca). Então vou demarcando o que é hegemonidade na periferia. Ela está ligada ao universo do crime, do funk…”.

João está aberto para convites em debates e pretende compartilhar a obra com bibliotecas públicas. O Caindo no Brasil via sortear um exemplar do livro no Instagram. Clique aqui para saber mais.