Kelvin Freittas tem 23 anos e nasceu na periferia de Itaquaquecetuba, extremo Leste de São Paulo. Órfão de pai – que nunca teve a oportunidade de conhecer – morava num quarto em cima da cada da avó e perdeu familiares pela violência da região. Foi aos 14 anos, quando teve acesso à internet pela primeira vez em uma lan house. Descobriu o Youtube e decidiu trabalhar com produções de vídeos pela internet.

Ele seguiu um caminho bem diferente do de vários amigos, que foram para funções do crime local. Kelvin se engajou no seu sonho e começou a participar de eventos que envolviam a produção audiovisual por causa da escola. Hoje, ele é empreendedor social em uma produtora de vídeos. O jovem também está rodando escolas públicas das periferias de São Paulo para contar sua história e sensibilizar os estudantes. Conversamos com ele para conhecer mais sobre esse jovem e seus projetos:

Como você começou a se envolver com a produção de vídeos? 

Fui participar de um Festival de Cinema da cidade, pela minha escola, e é aqui é que começa a minha identificação com educação e cinema. Sonhar na quebrada com cinema era algo surreal! “Não dá! É difícil demais”, todo mundo me dizia. Com essa oportunidade que a escola me deu, eu voei.
 
Entrei pra esse projeto, sem recurso, sem câmera, mas com muita coragem, garra e perseverança. Nosso filme foi premiado como um dos melhores de todas as escolas do Alto Tietê. No ano seguinte, participamos  e ganhamos novamente. O que eu mais ganhei nesse segundo ano não foi o prêmio, mas um grande amigo, porque lá eu conheci Eduardo Lyra, escritor, jornalista e fundador do Instituto Gerando Falcões, que me deu um horizonte de vida.
 
Jovens assistindo palestra de Kelvin Freittas
 
Na época eu comecei a trabalhar com ele, ele não podia me pagar dinheiro, mas ele me deu muitas oportunidades. Uma delas foi me colocar em contato com Ferando Grostein Andrade, diretor do documentário “Quebrando o Tabu” e outros grandes filmes, documentários e peças publicitarias de sucesso.
 
Esse cara me deu a oportunidade de trabalhar numa produtora, a Spray Filmes, que me treinou do zero em pós produção e em outras áreas do cinema. Fiquei lá por 3 anos e depois fui convidado para trabalhar como editor sênior no canal Desimpedidos, o maior canal de futebol no Youtube [com 6 Milhões de inscritos].
Depois fundei minha própria produtora na comunidade, a Social Filmes, gerando renda local, empregando gente e dando oportunidade para outros “Kelvin’s” sonhadores da comunidade.
 
Passei por tudo isso, pra poder provar que o cara que vem da mesma realidade que eu, pode chegar a qualquer lugar, mesmo que o lugar onde você mora não passe um ônibus que te leve pra esse sonho.
E provar que a periferia vibra, ela é talentosa, só precisa alguém vir e dizer: vai lá! É possível, se eu conseguir escolher o que queria e fazer acontecer, acredita que dá!

Como surgiu a ideia de rodar as escolas das periferias de SP para despertar o propósito e o projeto de vida dos estudantes?

Depois que abri minha produtora, passei a apoiar o Projeto Cinearte aqui na cidade de várias maneiras. Mas não adianta a gente ter um super projeto legal, com um super potencial mas os alunos as vezes não acreditavam que aquilo era capaz de fazê-los alçar novos vôos. Do ano de 2015 para o ano de 2017 houve uma queda de 50% das inscrições das escolas, e isso me chateou muito. Então, decidi ir de escola em escola convocar os alunos para participarem. Mesmo que eles não gostassem de cinema como eu gostava na época da escola, eles aprendem muito mais do que fazer um filme no projeto.
 
Uma observação importante é que desses 50% dos alunos que não participaram nos dois últimos anos não foram culpa dos alunos ou desinteresse total. Eu descobri que a maioria das escolas não se inscreveram por dois motivos. O primeiro porque os diretores não repassavam isso pra escola. Depois, porque quando chegava até eles o projeto não tinha nenhum professor que pudesse acompanhá-los nas reuniões. Isso me chateou muito. Porque eu conheço o potencial do projeto. Então decidi ir até eles.
 

Quais os retornos que você já teve dos alunos e dos professores/pais?

O retorno geralmente é imediato, eu chego nas escolas públicas daqui e fico chocado com clima negativo que elas têm. A falta de esperança que existe tanto dos diretores, professores quanto dos alunos.
Daí quando eu chego, conto minha história e mostro pra eles outro caminho além do tráfico, do crime a resposta é: sério? Tem outro caminho? Eu posso sonhar? Consigo vencer meus medos sozinho?
Porque a palestra vai muito além de convidá-los para o Cinearte. Sempre após as palestras vem alunos e professores me abraçando, emocionados, chorando e muito mais inspirados a sonhar mais.
 
Teve um caso de uma escola, que no final da palestra a diretora virou e falou “Eu não ia participar do Cinearte esse ano, mas agora eu vou inscrever vocês!” e os alunos gritaram como se fosse Gol de Copa do Mundo. Aquilo pra mim não teve preço.

Onde você quer chegar com essa iniciativa?

Kelvin Freittas apresentando sua história para jovensO principal motivo de eu ir nas escolas é de incentivar eles a participarem esse e os próximos anos do projeto. Mas o real motivo vai além disso. Eu tenho ido de escola em escola pra provar pra eles que o crime não é o melhor caminho, que o “mano não vai descolar o tênis de mil reais da pior forma”. Que ele pode “trampa” e sonhar com o que ele quiser e só depende dele. Parece frase pronta, eu sei. Mas isso na comunidade faz TODA  A DIFERENÇA.
 
Chegar na escola e falar “mano, eu vim da onde você vem, eu sonhava como você sonha (quando sonha), eu estudava numa escola como você estuda, e as quatro paredes bege e cinza da escola não foi meu limite, sonhei mais alto e fiz” faz toda a diferença na vida desse cara. Os alunos passam em média 4 horas do dia deles numa escola que não os motiva, não aproveita as habilidades deles e não dá ferramentas pra exercitarem elas. Se alguém não for lá e fazer o papel difícil de inspirá-los e dar uma ferramenta de transformação, que é o Cinearte, eu não sei onde esse aluno, essa aluna vai parar. Alguém tem que fazer isso.