O Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) publicou pesquisa sobre educação aberta e as possibilidades de inserção da mesma no contexto econômico atual. A construção de uma educação aberta envolve o engajamento e o diálogo entre Estado, setor público e sociedade civil. Por isso, a análise da pesquisa buscou prever os modelos de negócios viáveis a partir de recursos abertos.

Tecnologias sendo usadas para ampliar as oportunidades para educação

O novo compromisso, denominado Agenda 2030 Para o Desenvolvimento Sustentável mantém a educação como elemento fundamental rumo à sustentabilidade do planeta. O documento destaca a tecnologia no processo de impulsionar o progresso humano. Ele também destaca como é necessário eliminar o fosso digital e fomentar o desenvolvimento de sociedades do conhecimento.

Integrar as tecnologias digitais ao currículo de forma qualitativa para aproximar a escola da cultura digital é um desafio global. A pesquisa apontou que o uso da tecnologia passa, em primeira instância, pela formação inicial e continuada de docentes. Em seguida, apontou-se como o uso da tecnologia na educação pode tornar o aprendizado mais próximo do cotidiano dos estudantes.

Inovação aberta e colaboração em rede

A tecnologia também pode apoiar o compartilhamento de práticas entre os professores. No entanto, a pesquisa indicou que ainda é preciso desenvolver essa cultura entre os docentes. A pesquisa TIC Educação 2015 indica que apenas 30% dos professores têm o hábito de publicar na internet os materiais que produzem. Essa porcentagem permaneceu estável em relação às edições anteriores da pesquisa.

Falta de tempo (13%). Baixa velocidade de conexão com a internet (12%). Obsolescência dos equipamentos utilizados (11%). Receio de se expor (8%) e o de violar direitos autorais (7%). Essas causas foram citadas como os itens que mais dificultam a publicação dos conteúdos produzidos pelos professores. A preocupação em relação aos direitos autorais é real. Uma vez que a maioria dos conteúdos disponíveis na rede encontra-se protegida pela lei de direitos autorais. Isso impede a modificação de um conteúdo sem a autorização prévia do autor.

Inovação Aberta

Empreendedores podem apoiar a ampliação da cultura de inovação aberta em educação

De acordo com a pesquisa do CIEB, a entrada de empreendedores e investidores no mundo da educação é bem-vinda. No entanto, é essencial que esses novos atores compreendam a educação como bem público. Ou seja, que possam construir um tipo diferente de mercado. Nele, a expectativa de lucro das empresas deve estar aliada à busca de impacto social no setor.

O Relatório Educação Inovadora e Educação para a Inovação, publicado pela OCDE em 2016, faz duas considerações ao chamado “emergente mercado de dispositivos tecnológicos”. A primeira é saber se o setor público está preparado para explorar as oportunidades oferecidas. A segunda é se o modelo de negócios está baseado apenas em licenças fechadas de propriedade intelectual, limitando as possibilidades de uso.

O desafio em questão é construir um modelo de negócio que levem em conta a cultura do compartilhamento e da colaboração. A  geração de bem público e a sustentabilidade para as empresas também devem estar nessas equações. Disponibilizar conteúdo para acesso livre e oferecer serviços associados pode ser um caminho, indica a pesquisa do CIEB.

Design Thinking pode apoiar a criação de modelos de negócio inovadores

Design Thinking pode ser entendido como um novo jeito de pensar e abordar problemas. A metodologia é baseada em um modelo de pensamento que coloca as pessoas no centro da solução de um problema. Isso porque os designers não pensam somente na beleza estética do produto ou serviço. Também se pensa na funcionalidade para o usuário.

Como novo modelo de pensamento, o Design Thinking se baseia em três pilares: empatia, colaboração e experimentação. Quando aplicamos o conceito no setor de serviços, surge o que se denomina Design de Serviços. Trata-se de uma série de atividades de planejamento e organização de pessoas, componentes materiais, infraestrutura e comunicação de um serviço. Isso é feito de forma a melhorar sua qualidade e a interação entre a empresa provedora do serviço e seus usuários.

Hoje, já existem várias publicações e eventos diversos dedicados a reunir makers para impulsionar a cultura de colaboração ao compartilharem as novidades nas quais estão trabalhando. Neste setor, há grande facilidade de encontrar parceiros interessados em colaborar para o desenvolvimento de um novo produto.

Educação aberta centrada no usuário

Esse contexto de abertura abarca diferentes objetos de observação e estudo. No campo da Educação podemos citar os recursos educacionais abertos, os livros didáticos abertos, o currículo aberto, as tecnologias de código aberto, a ciência aberta e os dados abertos públicos. Integrante deste conceito de Educação Aberta estão os Recursos Educacionais Abertos (REA). É um movimento mundial que começou a se capilarizar em 2002. Isso aconteceu quando a Unesco realizou o primeiro evento sobre o tema e cunhou o conceito.

Segundo uma das definições mais aceitas, Recursos Educacionais Abertos são “materiais de ensino, aprendizado, e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros.

O conceito de REA é focado em três princípios básicos: conteúdo de aprendizagem; licenças de uso que permitam maior flexibilidade e o uso legal de recursos didáticos e o uso de formatos técnicos abertos que sejam fáceis de modificar em qualquer software.

Dessa forma, apenas dar acesso a determinado recurso educacional não se caracteriza como um Recurso Educacional Aberto. Os REAs se apoiam em algumas liberdades mínimas concedidas pelo autor da obra ao usuário final. As liberdades são conhecidas como 5Rs:

A Educação Aberta e os REA oferecem novas oportunidades para a gestão do direito autoral, permitindo ao autor escolher quais liberdades gostaria de fornecer aos usuários finais da sua obra e expressar essa vontade por meio do uso de licenças e termos flexíveis de uso.

Mudanças necessárias para empreender em inovação aberta no Brasil

A educação pública brasileira ainda tem a compra de conteúdos educacionais fechados como uma das principais despesas do Estado. A pesquisa do CIEB se baseou em análise da consultoria legislativa do Senado Federal, realizada 2011. O estudo mostra que os programas governamentais de aquisição de livros didáticos têm enorme importância para o mercado editorial brasileiro. Essas compras governamentais representam cerca de 54% da indústria nacional de livros.

“O Estado responde pela aquisição de aproximadamente 90% dos livros publicados. Do lado da oferta, poucas editoras vêm concentrando o maior volume de compras ao longo do tempo”, registra a pesquisadora Tatiana de Britto. A conclusão está no estudo da Ação Educativa e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais (Greppe). A pesquisa identificou que o investimento consome entre 2% e 6% do orçamento previsto para a educação.

Um ecossistema aberto compreende elementos importantes. Políticas e uso de licenças flexíveis, formatos e padrões abertos, estratégias de atuação mais experimentais que possam ir além do tradicional. Além disso, a inovação aberta tem potencial para incentivar e moldar os mercados. Esse modelo pode favorecer a diversidade e a multiplicidade de modelos de negócios abertos. Trata-se de mudar o modelo mental de produto pronto ou preparado para o uso determinado que podem ser mais flexíveis e customizáveis.

Sustentabilidade financeira dos criadores de conteúdo

O estudo do CIEB aponta que cabe ao mercado dedicado à educação se reinventar. Para isso, empreendedores devem considerar o cenário de mudança pelo qual a sociedade passa, refletindo sobre a percepção de valor que pretende gerar em seu público. Paul Stacey, do CC Global, em sua investigação de modelos de negócio que utilizam licenças flexíveis, chegou a algumas premissas:

• Ao longo de décadas os bens comuns eram fechados e protegidos por forças do governo e do mercado. Mas os bens comuns estão agora no centro do debate sobre propriedade intelectual, particularmente os “commons” digitais, configurando-se como um importante meio alternativo de atingir os objetivos sociais e econômicos;

• A internet e a tecnologia digital têm potencializado a rede distribuída de produção e armazenamento, possibilitando a distribuição de produtos e conteúdos online com custos até próximos do zero;

• Custo zero marginal está contido no conceito da abundância (ou o potencial de abundância) que a economia de mercado mais tradicional não tem um modelo de atendimento;

• Os bens comuns não se restringem a conteúdos e recursos, mas evocam um processo social, possibilitado pela tecnologia, que envolve pessoas participando constantemente, partilhando, cooperando e colaborando;

• O processo social de práticas colaborativas vai afetar, mais cedo ou mais tarde, todos os setores da sociedade, incluindo a educação, manufatura, saúde, energia, trabalho, e até o próprio dinheiro.

“The Living Company: Growth, Learning and Longevity in Business”

No livro de Arie De Geus, o autor oferece um estudo com as 500 maiores empresas da lista da Fortune de 1999. Ele analisa as razões da diminuição radical da longevidade das organizações nas últimas décadas, cuja média no período estava entre 20 a 30 anos de existência:

1. Sensibilidade ao ambiente: Representa a habilidade de a empresa aprender a se adaptar. As empresas longevas do estudo foram capazes de se adaptar às mudanças no mundo a sua volta. Conforme as guerras, depressões, tecnologias e políticas surgiram e desapareceram, elas sempre se destacam em manter-se conectadas, em sintonia com o que estava acontecendo.

2. Coesão e Identidade: Refere-se à capacidade inata de uma companhia de construir uma comunidade e uma persona para si. Nas organizações resistentes no tempo, há uma consciência da sua identidade. O sentimento de pertencer a uma organização e se identificar com um propósito distintivo cria um sentido de comunidade que é essencial para a sobrevivência a longo prazo.

3. Tolerância e descentralização: São ambos sintomas da consciência ecológica da empresa: sua capacidade de estabelecer relacionamentos construtivos com outras entidades, interna e externamente. As empresas de longa vida são abertas aos movimentos e experimentos que surgem na margem do seu “core business” como as experiências e ‘excentricidades’ que estão além da sua compreensão. Eles reconheceram que novas iniciativas podem estar totalmente desvinculadas do negócio principal da companhia e que o ato de começar um novo negócio não precisa ser controlado centralmente.

4. Finanças conservadoras: Como um atributo crítico corporativo: a capacidade de gerir o seu próprio crescimento e evolução de forma eficaz. As empresas longevas não arriscam o seu capital gratuitamente. Elas entendem o significado do dinheiro de uma maneira antiga; a liquidez permite agarrar oportunidades que seus concorrentes não podem.

Recomendações

Para Políticas Públicas

 Estimular criatividade e inovação por meio de editais de incentivo baseadas no conceito de inovação aberta, cujos produtos e serviços financiados com recursos públicos sejam disponibilizados sob licença flexível;

• Revisar a atual legislação que rege as compras e licitações públicas de modo a contemplar possibilidades variadas, como serviços, atividades, e não somente produtos prontos e previamente preparados por empresas e agentes externos à escola;

• Considerar o conhecimento em tecnologias digitais como foco curricular e não apenas de forma periférica ao currículo;

• Criar estratégias de promoção de encontros e eventos para troca e cooperação entre educadores com habilidades e interesses comuns, aproveitando o potencial da internet em facilitar a conexão;

• Compartilhar produtos, processos e considerar opiniões e intervenções de seus públicos na formulação de novos produtos e serviços;

• Agir sob a lógica da abertura e da transparência. Incorporar as premissas e a metodologia da Parceria de Governo Aberto (OGP-Brasil) na formulação de políticas.

Para institutos e fundações

• Incorporar, em suas estratégias de projetos, programas e ações práticas bottom-up de cocriação de projetos ou mesmo apoiar diretamente iniciativas empreendedoras de escolas ou gestores técnicos de secretarias de educação. Oferecer suporte a partir da própria experiência com procedimentos internos de avaliação de processo e resultados;

• Apoiar financeiramente novos modelos de negócio em educação baseados nos conceitos de REA e inovação aberta, que sejam pautados na geração de valor via colaboração.

• Realizar ações que engajem educadores e gestores a serem empreendedores educacionais, aproximando-os do universo de inovação ao qual as startups interessadas em oferecer serviços educacionais costumam ter mais acesso;

• Participar de eventos de educação aberta e estreitar relações com organizações com experiência de atuação no setor;

• Utilizar licenças flexíveis e softwares livres em conteúdos e projetos que são ofertados sem custo para secretarias de educação, favorecendo não somente a sustentabilidade dos mesmos, como também a facilidade de adaptação e customização.

Para o mercado educacional

• Criar possibilidades e oportunidades para receber ideias externas, vindas de outras empresas (concorrentes ou não), redes de empreendedores, técnicos de governo, universidades e centros de pesquisa. Usar abordagens cocriativas como o Design Thinking;

• Valorizar contribuições de pessoas de dentro da própria organização. Com isso, criar uma cultura de inovação por meio de processos sustentáveis e de longo prazo, em vez de somente se preocupar em lançar produtos originais;

• Desenvolver um olhar empático em relação às necessidades dos usuários e optar por ferramentas que permitam flexibilidade de adaptação e customização do produto ou serviço, especialmente aqueles voltados para a educação pública;

• Aproximar-se dos debates e eventos do movimento Educação Aberta e REA e buscar compreender possibilidades novas de atuação nesse cenário;

• Integrar grupos, redes e associações focadas no estabelecimento de parcerias intersetoriais que visam a transformação de políticas educacionais. Renovar e atualizar políticas públicas para as necessidades atuais é ação fundamental;

• Criar protótipos de soluções de inovação aberta para a educação e experimentar com algumas escolas, secretarias ou educadores. Correr mais riscos em vez de evitá-los;

• Buscar áreas na educação menos visadas por soluções tecnológicas, como por exemplo, a formação inicial de docentes.