Guia da pesquisa do CIEB sobre “Inovação aberta em educação: conceitos e modelos de negócio”

O Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) publicou pesquisa sobre educação aberta e as possibilidades de inserção da mesma no contexto econômico atual. Sabendo que a construção de uma educação aberta envolve o engajamento e o diálogo entre Estado, setor público e sociedade civil, essa análise visa prever os modelos de negócios viáveis a partir de recursos abertos.

Para entender um pouco melhor esse documento que contém 98 páginas sobre o assunto, nós do Caindo no Brasil, fizemos um resumo com alguns conteúdos essenciais da pesquisa para pessoas que inovam em educação.

1  - Internet e oportunidades para educação

O novo compromisso, denominado Agenda 2030 Para o Desenvolvimento Sustentável , foi firmado em setembro de 2015 e mantém a educação como elemento fundamental rumo à sustentabilidade do planeta e destaca a tecnologia no processo de impulsionar o progresso humano, eliminar o fosso digital e fomentar o desenvolvimento de sociedades do conhecimento.

 

Figura 1: Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

Figura 1: Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

Integrar as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) ao currículo de forma qualitativa para aproximar a escola da cultura digital é um desafio global. Ele passa, em primeira instância, pela formação inicial e continuada de docentes e, não menos importante, pela incorporação de tendências que já fazem parte do cotidiano da sociedade conectada.Personalização, práticas colaborativas em redes digitais, gamificação, metodologias ativas de aprendizagem, uso de celulares e outros dispositivos móveis e adoção de softwares livres e conteúdo aberto são alguns exemplos possíveis.

Você se interessa por temas como esse, mas não tem tempo para ler o post até o final?

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ALGUMAS TENDÊNCIAS APONTADAS

• Educação Aberta: Geralmente confundida com educação gratuita, a Educação Aberta é replicável, “remixável” e sem barreiras de acesso e de interação.

• Cursos abertos e gratuitos: Com a popularização dos Moocs (Massive Open online Courses ou Cursos online massivos), os cursos online, abertos e gratuitos passam a se fortalecer como uma alternativa ao estudo tradicional, especialmente para quem está fora da escola.

• Habilidades do mundo real: O mercado de trabalho vem demandando dos recém-formados habilidades que têm sido mais frequentemente adquiridas em situações de aprendizado informal, como resolução de problemas, resiliência e outras habilidades emocionais, e a escola ainda não está preparada para atender tais demandas.

• Personalização e novas fontes de avaliação: Ferramentas de análise de atividades online podem ser utilizadas como instrumentos de avaliação e também para criar trilhas de aprendizado conforme o perfil do aluno.

 

Figura 2: 10 dimensões da educação aberta/ Fonte: Openning up Education

Figura 2: 10 dimensões da educação aberta/ Fonte: Openning up Education

• Identidade Digital: a capacidade de criar e gerenciar sua identidade online e sua reputação.

• Uso Digital: a capacidade de usar dispositivos e suportes digitais, incluindo a capacidade de estabelecer um equilíbrio saudável entre a vida online e offline.

• Risco Digital: a capacidade de evitar ou limitar os riscos online (por exemplo, cyberbullying, radicalização), bem como conteúdo problemático (por exemplo, a violência e a obscenidade).

• Segurança Digital: a capacidade de detectar ameaças virtuais (por exemplo pirataria, fraudes, malware), para entender as melhores práticas e de usar ferramentas de segurança adequadas para a proteção de dados.

• Inteligência Digital Emocional: a capacidade de ser compreensivo e construir boas relações com outros internautas.

• Inteligência de Comunicação: a capacidade de se comunicar e colaborar com outros internautas usando tecnologias e mídias digitais.

• Letramento Digital: a capacidade de encontrar, avaliar, utilizar, compartilhar e criar conteúdo, bem como a competência em pensamento computacional.

• Direitos Digitais: a capacidade de compreender e defender os direitos individuais e coletivos, principalmente os direitos à privacidade, propriedade intelectual, a liberdade de expressão e proteção de discurso de ódio.

Se buscar e utilizar já se tornou hábito, publicar e compartilhar produções autorais na rede ainda é uma atividade rara. A pesquisa TIC Educação 2015 indica que 30% dos professores têm o hábito de publicar na internet os materiais que produzem. Essa porcentagem permaneceu estável em relação às edições anteriores da pesquisa. Falta de tempo (13%), baixa velocidade de conexão com a internet (12%), obsolescência dos equipamentos utilizados (11%), receio de se expor (8%) e o de violar direitos autorais (7%) foram citados como os itens que mais dificultam a publicação dos conteúdos produzidos pelos professores.15 A preocupação em relação aos direitos autorais é real, uma vez que a maioria dos conteúdos disponíveis na rede encontra-se protegida pela lei de direitos autorais (Lei 9.610/199616), o que impede a modificação de um conteúdo sem a autorização prévia do autor

2. Inovação aberta, colaboração em rede e geração de valor.

Diversos atores estão surgindo no cenário educacional brasileiro, com o intuito de contribuir para a melhoria da qualidade da educação por meio da oferta de soluções digitais para o ensino. A entrada de empreendedores e investidores no mundo da educação é bem-vinda, porém é essencial que esses novos atores compreendam a educação como bem público, ou seja, que possam construir um tipo diferente de mercado, no qual a expectativa de lucro das empresas deve estar aliada à busca de impacto social no setor.

O Relatório Educação Inovadora e Educação para a Inovação, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de setembro de 2016, faz duas considerações ao chamado “emergente mercado de dispositivos tecnológicos”. A primeira é saber se o setor público está preparado para explorar as oportunidades oferecidas, e a segunda é se o modelo de negócios está baseado apenas em licenças fechadas de propriedade intelectual, limitando as possibilidades de uso.

O desafio em questão é construir um modelo de negócio que leve em conta a cultura do compartilhamento e da colaboração, de geração de bem público e ao mesmo tempo garanta a sustentabilidade para as empresas. Disponibilizar conteúdo para acesso livre e oferecer serviços associados pode ser um caminho.

Inovação aberta é um conceito que surge no início dos anos 2000, a partir dos estudos do professor Henry Chesbrough, PhD em Administração de Empresas e diretor do Center for Open Innovation na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Chesbrough busca confrontar o conceito tradicional e amplamente aplicado nas empresas nos séculos XIX e XX de que para inovar é preciso controlar.

Inovação aberta é, portanto, um conceito que muda a perspectiva do modelo tradicional, porque atribui ao usuário, ao público, a percepção de valor. Ou seja, só vai ser inovação se de fato provocar uma melhoria na vida das pessoas envolvidas naquele produto ou serviço. O conceito abrange, ainda, uma alteração nas próprias áreas fechadas de P&D, sugerindo que se abram para ouvir seus colegas de áreas diversas da própria empresa. Outra possibilidade é fechar parcerias e cooperações com instituições de pesquisa, universidades, fornecedores e, claro, com os usuários de seus produtos e serviços.

A cultura da Inovação Aberta - Fonte: Chesbrough (2003)

A cultura da Inovação Aberta - Fonte: Chesbrough (2003)

PROPRIEDADE INTELECTUAL

Outro aspecto bastante relevante do trabalho de Chesbrough envolve a questão da propriedade intelectual, ou seja, de como as patentes poderiam ser vistas de forma diferente do tradicional. Em vez de a empresa se preocupar em proteger todas as suas invenções, poderia fazer escolhas:

DESIGN THINKING E SERVICE DESIGN

Design Thinking (DT) pode ser entendido como um novo jeito de pensar e abordar problemas, um modelo de pensamento que coloca as pessoas no centro da solução de um problema. Isso porque os designers não pensam somente na beleza estética do produto ou serviço, mas também na funcionalidade para o usuário.

Hoje, já existem várias publicações e eventos diversos dedicados a reunir makers para impulsionar a cultura de colaboração ao compartilharem as novidades nas quais estão trabalhando. Trata-se de um ramo da economia em que há grande facilidade de encontrar parceiros interessados em colaborar para o desenvolvimento de um novo produto, seja no quesito técnico ou financeiro, este último especialmente via sites de financiamento coletivo.

Como novo modelo de pensamento, o DT se baseia em três pilares: empatia, colaboração e experimentação.

Normalmente, falamos em dois tipos de inovação:

• inovação complementar, quando se aprimora um produto ou serviço já existente e

• inovação disruptiva, que marca a criação ou o surgimento de algo completamente inusitado, que rompe paradigmas estabelecidos ou oferece uma possibilidade até então não conhecida.

Quando aplicamos o conceito do DT no setor de serviços, surge o que se denomina Design de Serviços (DS). Trata-se de uma série de atividades de planejamento e organização de pessoas, componentes materiais, infraestrutura e comunicação de um serviço de forma a melhorar sua qualidade e a interação entre a empresa provedora do serviço e seus usuários.

No entanto, as duas abordagens se complementam pois, somente compreendendo o usuário final, é que se pode cuidar de toda a cadeia produtiva. A abordagem costuma utilizar um roteiro para guiar sua aplicação, como por exemplo:

• Qual deve ser a experiência do usuário ao utilizar o serviço?

• Qual ou como deve ser a experiência do colaborador/funcionário ao prestar o serviço?

• Como manter-se fiel ao seu propósito e ao mesmo tempo relevante para o usuário?

O BRASIL QUE APOSTA NA ECONOMIA CRIATIVA

Entre os países da América Latina, o Brasil é líder de iniciativas de economia colaborativa segundo o estudo IE Business School, realizado em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Ministério da Economia da Espanha.

Há quem defenda que a lógica da colaboração e do compartilhamento é a chave da sustentabilidade do futuro, dada a quantidade de bens tangíveis que deixam de ser tomados como posse para se tornarem acessíveis. “Ter acesso é mais importante que possuir”é o mote do momento.

EDUCAÇÃO ABERTA E RECURSOS EDUCACIONAIS ABERTOS

Como o conceito de inovação aberta se aplica na educação? De que forma os processos de ensino e de aprendizagem se relacionam com os princípios da economia compartilhada, colaborativa, do bem comum?

As mudanças que têm habilitado cidadãos a criarem, modificarem e experimentarem novas ideias, compondo um ecossistema que vem se reinventando e se adaptando ao novo contexto facilitado pela internet, não poderia deixar de repercutir também no campo da educação.

Esse contexto de abertura abarca diferentes objetos de observação e estudo, e no campo da Educação podemos citar os recursos educacionais abertos, os livros didáticos abertos, o currículo aberto, as tecnologias de código aberto, a ciência aberta e os dados abertos públicos. Integrante deste conceito de Educação Aberta estão os Recursos Educacionais Abertos (REA), um movimento mundial que começou a se capilarizar em 2002, quando a Unesco realizou o primeiro evento sobre o tema e cunhou o conceito.

Segundo uma das definições mais aceitas, Recursos Educacionais Abertos são “materiais de ensino, aprendizado, e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros.

O conceito de REA é focado em três princípios básicos: conteúdo de aprendizagem; licenças de uso que permitam maior flexibilidade e o uso legal de recursos didáticos e o uso de formatos técnicos abertos que sejam fáceis de modificar em qualquer software.

Dessa forma, apenas dar acesso a determinado recurso educacional não se caracteriza como um Recurso Educacional Aberto. Os REAs se apoiam em algumas liberdades mínimas concedidas pelo autor da obra ao usuário final. As liberdades são conhecidas como 5Rs:

QUESTÕES JURÍDICAS E DE DIREITO AUTORAL

A Educação Aberta e os REA oferecem novas oportunidades para a gestão do direito autoral, permitindo ao autor escolher quais liberdades gostaria de fornecer aos usuários finais da sua obra e expressar essa vontade por meio do uso de licenças e termos flexíveis de uso.

Uma das licenças de direito autoral mais usadas mundialmente são as do Creative Commons (CC), uma organização sem fins lucrativos que criou um instrumento legal padronizado e de fácil de utilização. Tal instrumento oferece opções flexíveis que garantem proteção e liberdade para artistas, autores, empreendedores e usuários/ consumidores.

O Creative Commons parte de uma ideia simples: quando as pessoas compartilham sua criatividade e conhecimento com o outro, coisas incríveis podem acontecer. Não é uma ideia nova. As pessoas adaptam e constroem sobre o trabalho de outros por séculos. Músicos usam batidas da música de outro autor, artistas criam novas obras a partir de imagens de outras pessoas, professores trocam atividades e planos de aula entre si.

O Creative Commons acredita que o compartilhamento é uma das formas que a sociedade tem de evoluir, é como a cultura se desenvolve e como a inovação acontece.

QUESTÕES PEDAGÓGICAS E DE FORMAÇÃO DOCENTE

A produção de conteúdos durante os processos de aprendizagem não costuma ser reconhecida como autoria. A distância que se cria entre o “especialista que sabe” e professor e aluno, “meros consumidores de informação”, é grande. Os Recursos Educacionais Abertos podem diminuir essa distância.

Como? Incentivando que as contribuições, modificações e remixagens dos usuários sejam publicadas na rede, ampliando as informações disponíveis, diversificando regionalmente tanto conteúdos quanto pontos de vista e valorizando a informação produzida na ponta.

E por fim, a formação inicial e continuada de professores não deve mais estar vinculada a produtos, soluções e softwares específicos. É preciso estimular a autoria docente com independência, para que o professor consiga escolher o melhor recurso para atingir os objetivos de aprendizado dos alunos.

PRINCIPAIS POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL E NO MUNDO

MODELOS DE NEGÓCIO ABERTO

Katja Maye é pesquisadora de Ciência, Tecnologia e Sociedade na Universidade de Viena e fellow do Institute for Open Leadership112. Ela está desenvolvendo um levantamento de boas práticas na criação de bens comuns para além do conceito básico de inovação aberta. Seu foco é analisar como essas práticas também geram novos mercados e novas oportunidades.

NEGÓCIOS ABERTOS EM EDUCAÇÃO NO BRASIL

Design Thinking para Educadores

Iniciativa do Instituto EducaDigital, organização da sociedade civil engajada no movimento REA. Disponibiliza gratuitamente para download o material traduzido e adaptado do original da IDEO por meio da licença original CC BY NC SA. Financiamento. Serviços pagos de formação de educadores e estudantes para o uso da abordagem, oferecidos diretamente ou via instituições, escolas e universidades. Também oferece facilitação de processos cocriativos para concepção e desenvolvimento de projetos educacionais.

Perestroika

É uma das empresas brasileiras mais conhecidas por seus cursos diferenciados e metodologia disruptiva. A Perestroika disponibilizou para download, sob licença CC, uma publicação sobre sua metodologia. Seu objetivo é compartilhar o conhecimento adquirido por meio de pesquisas e investigações sobre formas inovadoras de aprendizagem em instituições do mundo todo. Financiamento. Próprio, visando a divulgação de seus serviços de cursos.

MUDANÇAS NECESSÁRIAS PARA EMPREENDIMENTOS EDUCACIONAIS PAUTADOS PELA INOVAÇÃO ABERTA

Educação é um dos temas mais complexos e debatidos na atualidade. Não apenas pela sua relevância como direito humano, mas também e — principalmente — por ser fator primordial para promover o desenvolvimento de um país. Relatório da OCDE lançado em 2016 e denominado “Alunos de baixo desempenho: por que ficam para trás e como ajudá-los?”, aponta que o Brasil está entre os países — num universo de 64 analisados — cujos alunos têm pior rendimento escolar.

FINANCIAMENTO DO SETOR

De acordo com o Censo Escolar 2015137, o Brasil tem 38.682.720 de matrículas, abrangendo creche, pré-escola, ensinos fundamental e médio, educação de jovens e adultos e educação especial.

O investimento de recursos públicos na área educacional compreende tanto os valores financeiros brutos aplicados pelo setor público no atendimento de demandas educacionais, como o custo de bens e serviços, incluindo a formulação de política, manutenção e desenvolvimento do ensino, a expansão e melhoria das escolas de diversos níveis e modalidades, dos programas de assistência ao estudante, dentre outros.

No ensino superior, segundo dados do Censo, o Brasil tem 7,8 milhões de matrículas. Diferentemente do ensino básico, o superior é dominado por instituições privadas, cujo crescimento foi incentivado pela Lei de Diretrizes e Bases de 1996, para suprir a demanda por cursos superiores não atendida pelas instituições públicas e é subsidiado pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), do Ministério da Educação.

Análise da consultoria legislativa do Senado Federal de 2011 mostra que os programas governamentais de aquisição de livros didáticos têm enorme importância para o mercado editorial brasileiro, cerca de 54% da indústria nacional de livros.

“No que tange à concentração do segmento, tem-se, do lado da demanda, um quase monopsônio (no ensino fundamental, por exemplo, o Estado responde pela aquisição de aproximadamente 90% dos livros publicados); do lado da oferta, configura-se um oligopólio (poucas editoras vêm concentrando o maior volume de compras ao longo do tempo)”, registra a autora, Tatiana de Britto.

Mesmo recebendo livros didáticos do MEC, 339 municípios brasileiros adotaram sistemas de ensino apostilados elaborados por empresas privadas, a maioria delas já fornecedoras de livros didáticos para o MEC.

A conclusão está no estudo da Ação Educativa e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais (Greppe), que identificou que o investimento consome entre 2% e 6% do orçamento previsto para a educação.

INVESTIMENTO SOCIAL E NEGÓCIO SOCIAL DE IMPACTO

A atuação de segmentos privados na educação, no entanto, vem sendo foco de atenção do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Em julho de 2016, por meio de uma resolução, determina que países membros reconheçam a educação como um direito, priorizem o investimento em educação pública e melhorem a regulação da atuação dos segmentos privados na educação.

O documento foi assinado por 21 organizações da sociedade civil, dentre elas a brasileira Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Se alinhadas às políticas públicas de forma a dar autonomia aos gestores e docentes, as iniciativas da área social privada ou dos negócios sociais podem trazer resultados satisfatórios e inovadores.

No entanto, muitos produtos educacionais estão sendo comercializados para secretarias de educação, associados a estratégias de mera capacitação instrucional. Programas, aplicativos ou plataformas que impõem uma única forma de uso e não permitem adaptação por serem protegidos pelo copyright, reduzem possibilidades de inovação educativa metodológica pelos usuários, e com frequência acabam funcionando como simples substituição de dispositivos analógicos pelos digitais.

INOVAR EM EDUCAÇÃO: RISCO E OUSADIA

A realidade da educação brasileira, em termos de qualidade, é um horizonte distante ainda, e a tecnologia digital, vista de forma isolada ou restrita a equipamentos e dispositivos, pouco pode oferecer.

Antes mesmo de acenar para o debate sobre a presença da tecnologia na escola, é fundamental discutir como é possível avançar para um cenário de educação com mais qualidade. Isso passa por metas? Isso passa por dados bem objetivos, como os estabelecidos pelo Ideb?

Pode até passar. Mas passa também, sem dúvida, pela relação professor e aluno em sala de aula. Passa pelas práticas estabelecidas, aceitas e validadas pelos gestores, pelas comunidades de pais, de educadores em geral. E é aí, nesse campo repleto de oportunidade para novos processos e abordagens, que a inovação aberta na educação pode ser incorporada.

Seu foco principal está no empoderamento de diversos atores, com suas competências e capacidades de agir e atuar no coletivo, inspirando-se uns nos outros.

Um ecossistema aberto compreende elementos importantes, tais como políticas e uso de licenças flexíveis, formatos e padrões abertos, estratégias de atuação mais experimentais que possam ir além do tradicional.

Além disso, a inovação aberta tem potencial para incentivar e moldar os mercados, favorecendo a diversidade e a multiplicidade de modelos de negócios abertos que podem ser desenhados e constantemente adaptados conforme os usos e apropriações.

Trata-se de mudar o modelo mental de produto pronto ou preparado para o uso determinado, para oferecer mais oportunidades de serviços e atividades ainda não pensadas, que podem ser mais flexíveis e customizáveis.

PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL BRASILEIRA

Dispostas a colaborar com a melhoria da qualidade da educação, muitas organizações da sociedade civil brasileira na atualidade vêm também colocando em prática estratégias focadas na promoção de soluções baseadas na tecnologia digital, como, por exemplo, plataformas adaptativas, metodologias de ensino invertido, games e objetos digitais diversos.

As ofertas são várias e normalmente oferecidas de forma gratuita aos sistemas de ensino, porém sem preocupação com licenças e liberdades de uso e adaptação. Mesmo após 14 anos do lançamento oficial pela Unesco do movimento global pelos recursos educacionais abertos, durante um congresso em 2002, a iniciativa social privada no Brasil, com raras exceções, se mantém alheia ao tema. Educação aberta é costumeiramente confundida com educação gratuita, como se a mera disponibilização de soluções educativas sem custo fosse suficiente.

Tornar o conhecimento possível e acessível para todos, abrindo caminhos para mais e mais processos colaborativos, é um dos desafios do setor social privado brasileiro, especialmente em considerar o apoio a iniciativas voltadas para REA, como acontece em vários dos modelos de negócios apresentados neste estudo.

Algo que é apresentado como “grátis”, mas que mantém o copyright ou o “Todos os Direitos Reservados”, limita a criação, a expansão do conhecimento e distancia a criatividade do remix. Ou seja, vai na contramão da inovação em educação que está na meta das fundações empresariais mais atuantes.

A iniciativa social privada poderia se aproximar desse debate e começar a incorporar em suas metodologias e estratégias de atuação o foco no uso, na produção e no compartilhamento de recursos por professores e estudantes. Formação de professores começa a se estabelecer como uma das pautas prioritárias nessas instituições.

SUSTENTABILIDADE DO MERCADO

Cabe ao mercado dedicado à educação se reinventar, considerando o cenário de mudança pelo qual estamos passando, refletindo sobre a percepção de valor que pretende gerar em seu público, para que possa manter fidelização e também uma perspectiva de renovação e adaptação constante para gerar sustentabilidade em seu negócio.

Paul Stacey, do CC Global, em sua investigação de modelos de negócio que utilizam licenças flexíveis, chegou a algumas premissas:

• Ao longo de décadas os bens comuns eram fechados e protegidos por forças do governo e do mercado. Mas os bens comuns estão agora no centro do debate sobre propriedade intelectual, particularmente os “commons” digitais, configurando-se como um importante meio alternativo de atingir os objetivos sociais e econômicos;

• A internet e a tecnologia digital têm potencializado a rede distribuída de produção e armazenamento, possibilitando a distribuição de produtos e conteúdos online com custos até próximos do zero;

• Custo zero marginal está contido no conceito da abundância (ou o potencial de abundância) que a economia de mercado mais tradicional não tem um modelo de atendimento;

• Os bens comuns não se restringem a conteúdos e recursos, mas evocam um processo social, possibilitado pela tecnologia, que envolve pessoas participando constantemente, partilhando, cooperando e colaborando;

• O processo social de práticas colaborativas vai afetar, mais cedo ou mais tarde, todos os setores da sociedade, incluindo a educação, manufatura, saúde, energia, trabalho, e até o próprio dinheiro.

No livro “The Living Company: Growth, Learning and Longevity in Business” , de Arie De Geus, de 1999, o autor oferece um estudo com as 500 maiores empresas da lista da Fortune no período, sobre as razões da diminuição radical da longevidade das organizações nas últimas décadas, cuja média no período estava entre 20 a 30 anos de existência:

1. Sensibilidade ao ambiente: Representa a habilidade de a empresa aprender a se adaptar. As empresas longevas do estudo foram capazes de se adaptar às mudanças no mundo a sua volta. Conforme as guerras, depressões, tecnologias e políticas surgiram e desapareceram, elas sempre se destacam em manter-se conectadas, em sintonia com o que estava acontecendo.

2. Coesão e Identidade: Refere-se à capacidade inata de uma companhia de construir uma comunidade e uma persona para si. Nas organizações resistentes no tempo, há uma consciência da sua identidade. O sentimento de pertencer a uma organização e se identificar com um propósito distintivo cria um sentido de comunidade que é essencial para a sobrevivência a longo prazo.

3. Tolerância e descentralização: São ambos sintomas da consciência ecológica da empresa: sua capacidade de estabelecer relacionamentos construtivos com outras entidades, interna e externamente. As empresas de longa vida são abertas aos movimentos e experimentos que surgem na margem do seu “core business” como as experiências e ‘excentricidades’ que estão além da sua compreensão. Eles reconheceram que novas iniciativas podem estar totalmente desvinculadas do negócio principal da companhia e que o ato de começar um novo negócio não precisa ser controlado centralmente.

4. Finanças conservadoras: Como um atributo crítico corporativo: a capacidade de gerir o seu próprio crescimento e evolução de forma eficaz. As empresas longevas não arriscam o seu capital gratuitamente. Elas entendem o significado do dinheiro de uma maneira antiga; a liquidez permite agarrar oportunidades que seus concorrentes não podem.

RECOMENDAÇÕES

PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

Estimular criatividade e inovação por meio de editais de incentivo baseadas no conceito de inovação aberta, cujos produtos e serviços financiados com recursos públicos sejam disponibilizados sob licença flexível;

• Revisar a atual legislação que rege as compras e licitações públicas de modo a contemplar possibilidades variadas, como serviços, atividades, e não somente produtos prontos e previamente preparados por empresas e agentes externos à escola;

• Considerar o conhecimento em tecnologias digitais como foco curricular e não apenas de forma periférica ao currículo, como já estão fazendo alguns países citados neste estudo (Chile, Austrália e Reino Unido) e também como habilidades de Inteligência Digital, como recomenda o Fórum Econômico Mundial;

• Criar estratégias de promoção de encontros e eventos para troca e cooperação entre educadores com habilidades e interesses comuns, aproveitando o potencial da internet em facilitar a conexão;

• Compartilhar produtos, processos e considerar opiniões e intervenções de seus públicos na formulação de novos produtos e serviços;

• Agir sob a lógica da abertura e da transparência. Incorporar as premissas e a metodologia da Parceria de Governo Aberto (OGP-Brasil) na formulação de políticas.

PARA INSTITUTOS E FUNDAÇÕES

Incorporar, em suas estratégias de projetos, programas e ações práticas bottom-up de cocriação de projetos ou mesmo apoiar diretamente iniciativas empreendedoras de escolas ou gestores técnicos de secretarias de educação, oferecendo suporte a partir da própria experiência com procedimentos internos de avaliação de processo e resultados;

• Apoiar financeiramente novos modelos de negócio em educação baseados nos conceitos de REA e inovação aberta, que sejam pautados na geração de valor via colaboração.

• Realizar ações que engajem educadores e gestores a serem empreendedores educacionais, aproximando-os do universo de inovação ao qual as startups interessadas em oferecer serviços educacionais costumam ter mais acesso;

• Participar de eventos de educação aberta e estreitar relações com organizações com experiência de atuação no setor;

• Utilizar licenças flexíveis e softwares livres em conteúdos e projetos que são ofertados sem custo para secretarias de educação, favorecendo não somente a sustentabilidade dos mesmos, como também a facilidade de adaptação e customização.

PARA O MERCADO EDUCACIONAL

Criar possibilidades e oportunidades para receber ideias externas, vindas de outras empresas (concorrentes ou não), redes de empreendedores, técnicos de governo, universidades e centros de pesquisa. Usar abordagens cocriativas como o Design Thinking;

• Valorizar contribuições de pessoas de dentro da própria organização, criando uma cultura de inovação por meio de processos sustentáveis e de longo prazo, em vez de somente se preocupar em lançar produtos originais;

• Desenvolver um olhar empático em relação às necessidades dos usuários e optar por ferramentas que permitam flexibilidade de adaptação e customização do produto ou serviço, especialmente aqueles voltados para a educação pública;

• Aproximar-se dos debates e eventos do movimento Educação Aberta e REA que acontecem em vários locais do mundo e buscar compreender possibilidades novas de atuação nesse cenário;

• Integrar grupos, redes e associações focadas no estabelecimento de parcerias intersetoriais que visam a transformação de políticas educacionais. Renovar e atualizar políticas públicas para as necessidades atuais é ação fundamental;

• Criar protótipos de soluções de inovação aberta para a educação e experimentar com algumas escolas, secretarias ou educadores. Correr mais riscos em vez de evitá-los;

• Buscar áreas na educação menos visadas por soluções tecnológicas, como por exemplo, a formação inicial de docentes. Existe uma lacuna sempre citada por especialistas, como Bernardete Gatti, em relação aos cursos superiores de licenciaturas e pedagogia em relação à falta de capacitação didática dos futuros professores