Entrevistamos Germano Guimarães, co-fundador do Grupo Tellus e palestrante no próximo Festival Path, que acontecerá nos dias 19 e 20 de maio e teve curadoria da frente de educação feita pelo Caindo no Brasil.

O Tellus é uma organização que trabalha com inovação em serviços públicos a partir do Design de Serviços. Essa metodologia tem pilares em criar soluções com foco no usuário, baseadas em criação conjunta com todos os atores envolvidos e baseadas em testes rápidos e baratos. Já foram realizados mais de 130 projetos com governos e organizações do terceiro setor, impactando mais de 1,5 milhões de pessoas.

Batemos um papo com Germano para aprender mais sobre inovação na educação pública:

Para você, o que é inovar junto com o setor público?

Inovação depende muito do contexto. Ela está ligada a um reconhecimento do contexto e a um entendimento sobre o que vai gerar valor pra gente. A definição que a gente usa no Tellus é que inovação é “uma ideia + uma ação = um resultado positivo”. Inovar é proporcionar mais eficiência, impacto e satisfação para o usuário.

Também existe um lado mais poético e filosófico: inovar é acreditar que o amanhã pode ser melhor que hoje. Para aquelas pessoas que a gente quer servir, a inovação sempre está ligada à servir melhor, minimizar sofrimento e potencializar alegrias. Se o serviço público consegue entregar isso pra população, conseguimos uma sociedade melhor.

Por fim, a inovação no governo pressupõe um desejo muito grande de criar a realidade possível. Pra isso eu gosto muito da definição que pra gente inovar é preciso crer pra ver. Nesse sentido, a gente precisa acreditar na inovação. Inovação é uma coisa que, às vezes, parece ser muito utópica, muito distante. Para a gente inovar no governo a gente precisa crer pra ver. Precisamos acreditar muito para acreditar que podemos ter serviços públicos melhores. É preciso acreditar, ser possível, mas ao mesmo tempo precisa conciliar utopia com pragmatismo

Germano Guimarães, co-fundador do Grupo Tellus, de braços cruzados no escritório
(Foto: divulgação)

Quais projetos o Tellus já fez para inovar a área da educação pública?

Eu posso citar diversos projetos que realizamos nos últimos anos. Acredito que podemos falar sobre dois:

Educador trabalhando na Área21
(Foto: divulgação)

Área 21: é um exemplo de inovação que reúne diversos temas com um único propósito. O Área21 busca trabalhar com as competências socioemocionais com jovens em alta vulnerabilidade social e, ao mesmo tempo, contribua para o desenvolvimento desses jovens na escolha ou nas profissões do futuro.

O projeto nasce a partir do trabalho com educação e com o desenvolvimento social. É uma metodologia didática. Mais importante que o laboratório maker e as máquinas tecnológicas, ter uma metodologia como a que desenvolvemos na Área 21 é um diferencial: como conduzimos esse jovem que está num estágio para um lugar mais avançado com pensamento criativo, colaboração, empatia?

O projeto traz um componente de inovação na pratica que é construir junto com esse jovem. Todo o processo de desenvolvimento do laboratório foi feito junto. Reunimos jovens, especialistas e comunidade para pensar tudo isso. Ele se propõe a ser um laboratório maker para trabalhar com competências onde os jovens trabalham por projetos e se desenvolvem para criar ou escolher profissionais do futuro. É um disrupção no modelo. A gente não está ensinando apenas uma técnica de educação profissionalizante. A gente propõe um modelo em que a gente ensina um novo jeito de pensar e de desenvolver problemas.

FAZ SENTIDO: identificando os grandes desafios no Ensino Fundamental 2  e Ensino Médio, viu-se uma grande oportunidade de trabalhar o jovem num momento de grandes transformações. Se a gente conseguir proporcionar experiência para atrair, motivar e desenvolver o jovem, é uma grande oportunidade para criar bases solidas e uma ponte para seu crescimento. O FAZ SENTIDO é essa ponte, onde a gente sistematiza, junto com diversos especialistas e um olhar multidisciplinar (nutricionistas, pedagogos, psicólogos, psiquiatras, arquitetos). Esse olhar sistêmico possibilita a melhor forma de criarmos a experiencia educacional. Esses especialistas reuniam práticas concretas e disponibilizaram uma série de ferramentas na plataforma online onde qualquer pessoa pode acessar de forma gratuita todo esse conteúdo. Ele se propor-se a ser essa plataforma de disseminação de boas praticas par gente criar essa escola que a gente sempre quis para esse jovem.

Quais foram os maiores aprendizados nesses anos todos inovando com o poder público?

O maior aprendizado foi entender que as coisas levam tempo param se consolidarem. Ter a capacidade de prototipar as soluções e mostrar o quanto elas são possíveis e viáveis, possibilita a validação que elas têm um poder transformador incrível. Isso é um grande aprendizado. A sociedade civil e governo precisam experimentar mais, arriscar mais, testar mais. Esse vai ser o caminho de disfunção no governo. A gente conseguir criar momentos e condições para que essas inovações brotem. A experimentação é fundamental.

Foto de escritório do Tellus, com mesas em estilo coworking
(Foto: divulgação)

A sociedade civil precisa estar junto com o governo para fazer essas experiências acontecerem. Não só num papel de cobrança, mas também fazer junto. Esse é um processo fundamental de maturidade na democracia brasileira, principalmente com terceiro setor e com os negócios sociais. A sociedade precisa aproximar mais o governo desse universo. A partir disso a gente poderá ter um governo mais inovador e centrado no usuário, no ser humano. Se não for junto não vai acontecer.

O Festival Path é um ótimo caminho para isso. Os gestores públicos precisam estar imersos nesse ecossistema de inovação. Eles precisam se nutrir desse novo olhar, de resolução de problemas, mais empático, onde todos precisam estar juntos. Isso exige repertório, experiências, dialogo, erro, se a gente não conseguir fazer isso mais, vai ser difícil.  Faz parte desse papel da sociedade civil trazer esse olhar e proporcionar esses encontros.