O Ethno é um festival de música que acontece há 18 anos e que reúne pessoas incrivelmente talentosas de todos os cantos do mundo. Em 2018, houve a primeira edição na América Latina, que aconteceu no Brasil. São 25 jovens de 10 países diferentes unidos por 10 dias em uma imersão cultural. Como resultado, eles criam um espetáculo para representar as diferentes nações presentes ali. E, principalmente, um ambiente tão aconchegante e inspirador que mostra que tudo o que precisamos para a educação é diálogo e sensibilidade.  O Ethno nasceu na Suécia e veio para o São Paulo através do Projeto Guri.

Imagem de três músicos do Festival Ethno durante ensaio
Aria Rita Waengertner, Theo Mizutani e Lucas Tozetti Madi, músicos do Festival Ethno durante ensaio (Divulgação)

Imersão cultural

O evento foi realizado pela Amigos do Guri, uma organização social de cultura que administra o Projeto Guri. Esse programa oferece educação musical gratuita para jovens. Durante o festival, o grupo estava sob liderança do acordeonista Gabriel Levy e da violonista alemã Katryn Doehner. O evento reuniu pessoas da Argélia; índia; Grécia; Japão; Suécia; Guatemala; Argentina; Chile; Portugal; Colômbia; Congo; Moçambique; Holanda; Noruega; França; Polônia e Tunísia. Todos eles ficaram na Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista, interior de São Paulo.

Durante toda essa imersão, eles trocam experiências musicais e de vida. Os músicos partilham suas tradições e culturas e ensinam uns aos outros as canções tradicionais de seus países. Entre eles há diversos representantes, como a violonista francesa Louise Calzada; a cantora argelina Yousara Boudah; o congolês Mabiala Nkombo, percussionista da Orquestra Mundana Refugi; Aria Rita Waengertner Pires, brasiliense especializada em música renascentista; e a mato-grossense Estela Ceregatti, vencedora do Prêmio Profissionais da Música 2018.

(Divulgação)

A aprendizagem está nos pequenos detalhes do cotidiano

Nós acompanhamos um dia do ensaio e do processo educativo que envolve o festival. Neste dia, eles começaram a ensaiar logo depois do café da manhã. Após alguns treinos em grupos menores – tudo com muita sintonia e fluidez -, eles se juntaram para iniciar o ensaio das apresentações finais. Durante este preparo, trocam muitas experiências e conhecimentos. E é exatamente nesse momento em que a aprendizagem transformadora acontece: tudo gira em torno da oralidade e da sensibilidade.

Há uma coletividade enorme no processo de aprendizagem desses músicos. Afinal, os jovens precisam aprender músicas de diversos países, com os instrumentos mais inusitados, em apenas alguns dias. E essa tarefa só é possível através de um processo educativo que realmente funcione e faça sentido: o diálogo. 

Após o ensaio geral, eles participaram de uma oficina com Suzana Rebelo. Ela é dramaturga, bailarina e produtora, e propôs uma sessão de meditação e sensibilização. Nela, exploraram o tato, a respiração e, principalmente, a confiança, através de atividades e estímulos sensoriais do corpo.

Depois, todos foram jantar. Esse momento foi ainda mais interessante. Na fila para pegar a comida, todos cantavam, batucavam e tocavam. De forma completamente harmônica e espontânea. A conclusão desse momento é muito sutil, mas muito importante: a aprendizagem está nos pequenos detalhes do cotidiano. E quando a educação é efetiva, além de transformadora, ela dissipa felicidade.

Educação livre

O festival se mostrou um exemplo de como toda a educação deve ser: livre. A música foi a canalização dos conhecimentos e sentimentos no processo educativo. Mas uma educação transformadora pode se dar em qualquer contexto, sobre qualquer assunto, até com grandes diferenças linguísticas, como foi o caso do Festival. “A sensibilidade, a oralidade, a criação coletiva e a prática são aspectos que tornaram essa experiência única e muito rica”, conta a participante Patrícia chandía, musicista chilena de 28 anos. 

Eles exploraram ritmos diferentes, mas também representaram alguns tipicamente brasileiros, como o maracatu. Além disso, os jovens trouxeram instrumentos nada convencionais, como guitarra barroca; um instrumento feito apenas com um pote de vidro e água; flautas de todos os cantos do mundo, entre outros.

Imagem dos membros do Ethno Brasil, se apresentando no vão livre do MASP. No palco, dois músicos se apresentam, e ao fundo, há aproximadamente outros 17 músicos
Ethno Brasil em sua última apresentação, no Vão Livre do MASP, em São Paulo (Divulgação)

Depois de tudo isso, o grupo fez um ciclo de apresentações gratuitas. Os shows se encerraram no último dia 26, em São Paulo, no vão livre do MASP. Neste dia, os jovens tocaram, cantaram e performaram para o público paulista em uma das maiores avenidas da cidade. A apresentação foi muito significativa e emocionante. Em primeiro lugar, por ser o último espetáculo do grupo. E, especialmente, por encerrar um ciclo de muitos aprendizados e trocas entre jovens empenhados em aprender e dialogar.

O Ethno 

O Ethno foi criado inicialmente pela Jeunesses Musicales International, a maior ONG de música jovem do mundo. Ele surgiu em 1990 e, por meio de um acampamento musical,  tem o objetivo de manter vivas as tradições culturais para as novas gerações. Através de workshops e apresentações, o evento promove diálogo entre culturas, difundindo conceitos como paz, tolerância, respeito, generosidade e compreensão entre jovens. 

O festival busca promover uma forma democrática de aprendizagem por meio de uma pedagogia não formal. O programa promove uma série de apresentações e concertos, que podem ser autônomos ou conectados a um festival maior. Os novos Ethnos de 2018 ocorreram na Nova Zelândia e Malawi e estão programados também para Argélia, Ilhas Salomão e Uganda, além do Brasil. Saiba mais no site global do Ethno Festival.