Escola usa mobilidade urbana para promover o direito à cidade

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz

Na zona norte de São Paulo, a EMEF Professora Nilce Cruz Figueiredo desenvolve há dez anos um projeto que tem a Cidade Educadora como cerne. Maria Isabel Kastner, professora de português, não deixou a falta de recursos ser um impeditivo para os alunos explorarem o espaço urbano e propôs uma alternativa que estimula o uso do transporte público e desenvolve cidadania, reflexão e coletividade nos adolescentes.

A iniciativa tem um nome longo (“Conhecer e usufruir a cidade, utilizando o transporte público, exercendo a cidadania embasada nos direitos humanos”) e não é por acaso: começou como uma ação pontual – uma alternativa para possibilitar as incursões dos estudantes pela cidade. Só com o tempo, já consolidada na unidade escolar, passou a ser encarada como um projeto.

Direito à cidade

Em 2003, Maria Isabel viu-se obrigada a pensar em uma solução para levar os alunos à cerimônia final de um projeto que participava representando a escola. Cada colégio podia levar apenas 10 alunos, número que não permitia o aluguel ou o fretamento de ônibus. No fim, os estudantes acabaram fazendo parte do trajeto com uma van escolar e parte com transporte público, solução simples, efetiva e bem sucedida, que provou ser uma possibilidade viável dali em diante. As visitas à Bienal do livro, ao centro da cidade, museus e exposições ganharam uma camada a mais de aprendizado.

“Para mim isso era algo simples e cotidiano, apenas a maneira de chegar nos lugares em que tínhamos algo para ver, mas passei a ter outra percepção quando uma aluna, no fim de semana, repetiu com a mãe o roteiro realizado em classe”, rememora Maria Isabel. “Aí entendi que mesmo que pudéssemos ir de ônibus fretado era mais interessante usar o transporte público.”

Alunos da EMEF caminham até exposição, em 2015 (Reprodução/Portal Aprendiz)

Alunos da EMEF caminham até exposição, em 2015 (Reprodução/Portal Aprendiz)

No universo da maioria dos alunos que participam do projeto, o transporte público está presente, mas apenas parcialmente. Eles circulam majoritariamente pela zona norte e os ônibus são mais comuns do que o metrô. Nas palavras da educadora, o mundo é “da Marginal [Tietê] para o bairro”. Por isso, a equipe da escola se colocou o desafio de ampliar o repertório dos estudantes, colocando-os em contato com a oferta cultural da cidade.

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Estratégias urbanas

Quando há um evento ou exposição que a professora Maria Isabel Kastner avalia como importante e disparadora de discussões, o primeiro passo é combinar com os organizadores e agendar a visita. Mas há uma segunda estratégia: em geral, a professora vai um dia antes ao ponto de ônibus ou estação do metrô e conversa com o motorista ou funcionários, comunicando que a turma estará ali no dia seguinte. Dessa forma, o ônibus vem reservado para os alunos, o que a educadora garante que foi um zelo adquirido com o tempo.“Quando não fazíamos isso, nossa turma sozinha enchia os ônibus. Isso causava um estresse para muita gente, especialmente em horário de pico.”

Os alunos, já acostumados, levam os bilhetes únicos carregados conforme a orientação da professora, mas há alguns de reserva para os estudantes que esquecem de carregar ou para aqueles que não podem pagar. Nesse caso, eles são os convidados da viagem. Um outro cuidado é a disponibilidade de ônibus acessíveis a cadeirantes, já que há estudantes com deficiência.

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Aprendizado na cidade

Maria Isabel esclarece que o projeto não tem como objetivo ensinar os adolescentes a andar de ônibus. Colocá-los nesse transporte é uma estratégia educativa e de cidadania que visa assegurar o direito deles à cidade. “Quando se está no transporte público, o que se vê é a vida, o dia a dia. É quando eles percebem as diferenças em São Paulo, a falta de cuidado em algumas regiões e outras desigualdades”, ressalta a professora.

Nesses modais, os alunos são encorajados a refletir sobre a rotina do transporte público – que já os incomoda em um único dia – e sobre as pessoas que circulam na cidade. O metrô, por exemplo, é um espaço para combater a homofobia; as calçadas comunicam se pessoas com deficiência visual ou em cadeira de rodas conseguem ou não transitar por ali. “É um diálogo importante no qual eu ressalto que, embora nem todas as pessoas sejam iguais, todas têm o mesmo direito de estar ali”, defende Maria Isabel.

Outro aspecto importante da iniciativa na EMEF Professora Nilce Cruz Figueiredo é o desenvolvimento e a valorização da autonomia dos estudantes que (re)descobrem a cidade e ampliam sua autonomia para explorá-la. Com mais de uma década de prática, a professora Maria Isabel Kastner destaca também as possibilidades que se abrem quando os alunos ampliam seus mapas para além do próprio bairro e compreendem que tanto eles, quanto suas famílias, têm direito de estar nesses locais. A fala de uma aluna do sétimo ano, em visita à Avenida Paulista, ilustra essas novas descobertas:

“Achei que só conheceria [a Avenida] quando viesse trabalhar, como aconteceu com a minha mãe. Ela não vai acreditar que estive aqui!”

Territórios Educativos

O projeto “Conhecer e usufruir a cidade, utilizando o transporte público, exercendo a cidadania embasada nos direitos humanos” foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio.

O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida, integrando os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo e de diversos tipos de unidades escolares.

Confira os outros projetos vencedores.