DESESCOLARIZAÇÃO PARA APRENDER

COMO TRAÇAR UMA JORNADA DE APRENDIZADO LIVRE E EM COMUNIDADE

Alex Bretas, Camila Haddad e Luísa Modena uniram suas inquietudes para criar o Desaprender, um programa de educação autodirigida para quem quer aprender com liberdade e com o apoio de uma comunidade. De pré-definida essa iniciativa do UnCollege Brasil só tem espaço e tempo: serão 4 meses, com 2 a 3 encontros semanais na Casinha 161 — um coworking no bairro do Paraíso, em São Paulo — além de duas viagens de imersão. Todo o resto está aberto para ser construído em conjunto. A primeira turma do Desaprender começa no dia 26 de abril, as inscrições vão até esta sexta-feira.

O programa é como um curso, mas sem currículo pré-definido: por meio dos interesses e necessidades dos participantes é que serão construídas as trilhas de aprendizagem. “A partir da aprendizagem autônoma as pessoas podem desenvolver seu autoconhecimento, protagonismo, capacidade de articulação em comunidade e poderão desaprender (no sentido de desconstruir) antigas crenças, que darão espaço para outras novas”, conta Alex.

A trajetória antes da jornada

O mineiro Alex Bretas se formou em administração pública e foi gestor público do governo de Minas Gerais. “Aprendi muito, mas também me frustrei bastante com a baixa permeabilidade do setor público às novas ideias e à experimentação”, conta. Se mudou para São Paulo, onde trabalhou com consultoria, se envolveu em diversos projetos e passou a pesquisar alternativas mais livres e democráticas na educação. Disso nasceu a “Educação Fora da Caixa”, uma investigação que gerou dois livros e uma série de workshops e palestras pelo Brasil e ainda está ativo. Durante sua pesquisa, Alex recebeu o convite para ser um dos mentores do UnCollege Brasil e, no fim do ano passado, virou sócio da organização.

A partir das pesquisas ligadas a um de seus projetos, o Doutorado Informal, Alex conheceu Luísa Modena, com quem trocou cartas investigando as possíveis relações entre o nascimento e aprendizagem. Luísa nasceu e cresceu no interior de São Paulo, e desde pequena tinha grande curiosidade para olhar e querer cuidar da educação, da família, do bebê (desde a barriga), da infância. Mas levou um tempo para perceber que esse era um caminho que ela poderia percorrer também como atuação profissional. “Já morando em São Paulo me aproximei dos estudos e trabalhos relacionados a esses temas, me entendendo hoje como educadora e doula, além de empreendedora e comunicadora nestas áreas”, conta.

Para completar o time, os dois se juntaram a Camila. Formada em administração pela FGV e com mestrado pela University College London, ela começou a perceber que os diplomas não dizem nada sobre ela. Trabalhando com sustentabilidade entrou no universo da colaboração e resolveu abrir o Cinese, uma plataforma para estimular encontros presenciais. Sobre esse encontro de ideias, Alex conta: “Quando conversamos, ela me disse sonhar com uma universidade livre, um espaço em que todos pudessem ir para aprender e se aprofundar no que quisessem, colaborando uns com os outros. Isso é justamente o que o Desaprender quer ser”.

Onde nasce o questionamento

Questionamentos como esses podem começar bem cedo, e um exemplo disso é a vida de Dale Stephens, fundador do UnCollege. Com 11 anos, percebeu que a escola tradicional não fazia sentido para ele e resolveu, com o apoio dos pais, ser desescolarizado. Para isso, passou por um processo diferente da escolarização em casa (homeschooling): Dale começou a traçar suas trajetórias de aprendizado a partir de seus interesses. Aprendeu sobre música, trabalhou na biblioteca da cidade… foi aprendendo movido por sua curiosidade e buscando apoio de profissionais ou criando grupos de estudo.

Após anos de desescolarizacão, Dale até tentou se adequar a uma faculdade tradicional, mas logo percebeu que o modelo continuava não fazendo sentido. Daí nasceu o UnCollege, primeiro como movimento de contestação ao ensino superior americano e depois como organização para estimular diferentes narrativas de aprendizagem. O Gap Year é um de seus principais projetos: uma espécie de ano sabático “assistido”, dedicado ao autoconhecimento, ao trabalho voluntário, a sair da zona de conforto e, ao fim, criar algo novo — seja um projeto, uma pesquisa ou startup. Para conhecer mais sobre sua história, vale a pena ver sua participação no TEDxAshoka.

Experiências pensadas por quem as vive

O Desaprender segue um modelo mais ousado que o do Gap Year, justamente por não seguir modelo algum. Segundo Alex “o Gap Year é um programa fantástico, mas requer das pessoas uma disponibilidade significativa de tempo e investimento. O Desaprender foi criado para quem quer ter uma experiência dehackschooling e aprendizagem autodirigida, mas quer ou precisa permanecer em suas atividades cotidianas”.

Sem currículo pré-determinado, as demandas, temas de estudo, objetivos e projetos vão surgir ao longo das reuniões, a partir das conversas, atividades e provocações. A missão da equipe do Desaprender será apoiar e mediar esses processos de aprendizagem, entendendo as particularidades de cada participante. Com esses interesses em mente, o “desaprendente” terá a sua disposição um grupo de mentores, com mais de 30 profissionais de diversas áreas, para responder às dúvidas e necessidades que forem surgindo ao longo do programa.

“Na maioria dos cursos as experiências são pensadas antes de se conhecer as pessoas que vão viver aquelas experiências”, afirma Camila. No Cinese, ela acompanha de perto reuniões intensas e produtivas, porém de curta duração. “Como tudo que é explosivo, o encontro pode ser muito intenso e mudar a vida de quem está ali, mas esse impacto também parece ir embora rápido. Precisamos pensar em algo que dure mais!”, completa.

Vamos imaginar que a Bruna é formada em Publicidade e Propaganda, mas após trabalhar por anos em agências, percebeu que aquilo não é para ela. Quando jovem ela se interessava por questões ligadas à sustentabilidade e ao meio ambiente, mas acabou deixando essa curiosidade de lado para seguir sua carreira. No Desaprender ela pode retomar esse interesse, conhecer mais sobre o assunto e, caso se encontre mesmo nele, contar com ajuda de profissionais especializados para desenvolver uma pesquisa ou projeto na área do desenvolvimento sustentável.

“Queremos ser uma universidade livre, ou melhor, uma comunidade de aprendizagem onde todos têm coisas para aprender e compartilhar”, resume Alex. E é de se esperar que uma universidade tenha um campus: o do Desaprender é a Casinha 161, um espaço de coworking no bairro do Paraíso, com ambientes coletivos e salas individuais. A diferença é que para entrar nessa “universidade” não é preciso passar por processo seletivo: qualquer pessoa maior de 16 anos pode se inscrever. Segundo Luísa: “incômodos são ciclos, não importa a idade, as perguntas não param”.

Assim como a comunidade que estão criando, o Alex, a Camila e a Luísa estão sempre abertos para conversar e tirar possíveis dúvidas. Justamente para tornar esse processo ainda mais claro, organizaram alguns encontros abertos de “degustação” do programa. Marque um bate-papo com eles para saber mais e, quem sabe, começar uma nova jornada.

Para saber mais:

Desaprender: https://desaprender.squarespace.com/

O que faz: um percurso desescolarizante para quem quer aprender livremente e em comunidade

Contato: alexbretas11@gmail.com; camilajh@gmail.com; modena.luisa86@gmail.com.