Aprender o Português é fundamental para o processo de adaptação no novo país. Em Perus, zona noroeste de São Paulo, dos cerca de 700 cidadãos haitianos que vivem na região. Destes, 190 estão matriculados no Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA).

“A demanda cresceu muito de 2016 para 2017 e os alunos haitianos constituíram-se uma turma própria com suas particularidades. E se destacou muito o desejo e a necessidade de se apropriar do português”, explicou a educadora Cristiane Fialho para o Portal Aprendiz. A partir da chegada desses estudantes, ela percebeu que o currículo da escola precisava de mudanças.

As aulas regulares não faziam sentido para os migrantes já que eles não entendiam a língua. Além disso, muitos dos estudantes já vinham escolarizados do Haiti. A equipe da escola uniu-se então para pensar formas de criar um diálogo intercultural. O foco era ampliar as interações entre os estudantes brasileiros e haitianos. Assim, eles buscaram converter a escola em um espaço de acolhimento para essa população. Foi o nascimento do projeto “O Haiti é aqui….em Perus!”

Um novo currículo

Para endereçar as demandas diagnosticadas pela escola, o português foi reforçado com aulas em todos os dias da semana. Além disso, conteúdos sobre a cidade de São Paulo, Perus, história e geografia brasileira foram incluídos. Cristiane, que dá aulas de Português, reforça que esse processo foi pensado sem deixar de respeitar e absorver todo o conhecimento trazido do Haiti.

“A demanda era muito clara. Por isso, embora a adaptação seja complexa, ela também é, de certa maneira, fácil”, declara Cristiane. A professora permite que os interesses, curiosidades e dúvidas dos estudantes norteiem os assuntos trabalhados em sala de aula. As músicas, por exemplo, entraram como ferramenta para ampliar o repertório de quem está aprendendo a língua portuguesa. E como muitos dos matriculados estão em níveis muito iniciantes da língua, uma saída foi utilizar canções em Francês ou Creole, para que eles possam traduzir com a ajuda dos colegas.

Imagem de aproximadamente 15 alunos do Cieja Perus sentados durante a aula
Vindos do Haiti, estudantes são recebidos pelo Cieja Perus (Reprodução/Portal Aprendiz)

Cultura como vetor

Executar um currículo específico ainda tinha como tarefa reverter o cenário de isolamento dos haitianos identificado pela escola. Para isso, a equipe criou uma Feira Cultural Haitiana, realizada em junho de 2017. O objetivo do evento era apresentar a cultura haitiana: culinária, música, vestimentas e a história do país. “Para que todos pudessem entender quem eles eram e de onde vinham.”

Todo o conteúdo foi desenvolvido pelos estudantes da unidade. Eles ministraram oficinas de música haitiana, cozinharam e convidaram os brasileiros a assistir as aulas. Além de alunos e professores, moradores da região também participaram e colaboraram com a festa.

Imagem de dois alunos em pé do CIeja Perus durante uma atividade em sala de aula, enquanto os outros estudantes observam
Oficina de dança haitiana pronovida pelos alunos migrantes em preparação para a Feira Cultural (Reprodução/Portal Aprendiz)

O evento foi tão bem sucedido que fez crescer o número de migrantes matriculados na escola. Hoje eles se dividem em duas turmas, diferenciadas pela familiaridade dos alunos com o idioma. A Feira de cultura haitiana inspirou também uma sobre o Brasil, realizada meses depois, e a ideia é torná-las fixas no calendário escolar.

Imagem de três alunos do Cieja Perus sorrindo para foto durante evento organizado pelos imigrantes
Alunos durante a feira cultural haitiana promovida pelo CIEJA Perus (Reprodução/Portal Aprendiz)

 

Territórios Educativos

O projeto “O Haiti é aqui….em Perus!”  foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio.

O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida, integrando os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo e de diversos tipos de unidades escolares.

Esse post é um resumo com alterações do Caindo no Brasil de matéria publicada pela repórter Nana Soares para o portal Aprendiz, com o título “Presença de migrantes leva CIEJA Perus a propor currículo intercultural”. Clique no link para conferir a matéria original e completa.