Entrelinhas e laços: Camila Coragem

Por Maria Eduarda Gomes

Ensinar exige rigorosidade metódica.

Esse é um dos tópicos do sumário do clássico freiriano “Pedagogia da autonomia”.

Ensinar exige pesquisa.

Ensinar exige curiosidade.

Ensinar exige tantas coisas que eu dei conta só de ler o sumário do livro e fiquei dias processando todos os requisitos que Freire me contou naquela noite quente e chuvosa da primeira semana de novembro.

A reflexão me trouxe a lembrança de um episódio de maio que reverberou novas atitudes e práticas mais amadurecidas.

Eu levei minhas quatro turmas de sétimo ano na exposição itinerante da Bienal de São Paulo. Foi um desafio enorme trabalhar em sala de aula conceitos de arte contemporânea e pós modernidade. O tema da Bienal era incerteza viva.

Por ser tão incerta e tão viva eu falhei. Falhei no processo, falhei na visita e falhei na avaliação.

Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática

Cinco meses depois decido sair mais uma vez dos arredores da escola e mostrar que a construção do saber se dá em outros espaços, com outros sujeitos e sobre outros temas, diferentes dos do livro didático.

Dessa vez fiz diferente.

Fiz pequeno e intuitivo. Fiz grande e organizado.

Ensinar exige tomada consciente de decisões.

Estou desenvolvendo um projeto de produção audiovisual no contraturno. Os alunos escreveram o roteiro de um curta e agora estamos na fase de gravação. Camila é a aluna que mais se envolveu com esse projeto. Sempre tem aquela pessoa que se apaixona, agarra a ideia e se desenvolve de uma forma muito autêntica e genuína. Camila já gostava muito de fotografia. Ela começou a me seguir no Instagram e viu que eu também sou entusiasta desse universo. Ela se aproximou de mim, me pediu dicas e me enviou fotos suas. Eu vi ali uma semente brotar me pedindo mais água pra crescer.

Certo dia eu estava rolando o feed infinito no Facebook a procura de nada e encontrei uma oportunidade que caiu feito chuva no solo de Camila: uma oficina de fotografia criativa para iniciantes.

Consegui pagar meia inscrição pra ela e fomos juntas.

No caminho ela observava a transição pela janela do Uber. Da periferia para o centro.

- Você costuma vir pra esses lados da cidade, Camila?

- Não. Eu nunca saio do bairro. De vez em quando vou visitar uns parentes que tenho lá no Pedregal, sabe?

Pedregal é um extremo oposto ao da nossa escola.

- Minha mãe não me deixa sair sozinha. Nunca peguei ônibus só. Ela me deixou ir nesse curso porque a senhora conversou com ela e porque você está comigo... Ela fala que é perigoso uma menina sair por aí sozinha. E é mesmo né...

Fiquei um tempo em silêncio e na minha mente passou um filme de todas as vezes que transitei meu corpo sozinho pelo mundo. Sou uma mulher consciente dos desafios que enfrento na sociedade. Sou branca e venho de uma família de classe média do interior paulista. Tenho consciência de meus privilégios também. Sou adulta, mas já fui adolescente. De todas minhas identidades caleidoscópicas, naquele instante eu assumi a de educadora. Educadora responsável por levar “sozinha” uma aluna em um ambiente completamente diferente dos que ela frequenta para fazer um curso sobre um assunto que está fora dos parâmetros curriculares.

Respirei, inspirei e parafraseei Guimarães Rosa:

- É perigoso, Camila. Mas a vida exige coragem! Nós, mulheres, precisamos ser cuidadosas, sim.  Mas precisamos ser corajosas.

Chegamos no local do curso. Metade cheio. É o nome do café-bar, loja-galeria, ateliê colaborativo que abriu recentemente suas portas no centro histórico da capital mato-grossense. Eu amo esse lugar. Camila também amou. Ela observava tudo com um olhar de viajante que me fez recordar minha primeira viagem.

O curso estava dividido em duas partes: teórica e prática. No início ela estava tímida, mas no final saiu pelo café com seu celular e depois com a minha câmera registrando cada instante, cada cenário, cada universo que só o olhar dela é capaz de enxergar.

Depois da sessão fotográfica voltamos pra sala e exibimos nossas produções. Rodolfo, o fotógrafo que ministrou a oficina, ia passando as fotos na tela e fazendo comentários. De repente aparece a foto de Camila.

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Eu finalizo meu relato aqui. Com essa foto que me preencheu a alma e me deixou afônica.

E com mais um tópico do sumário-poesia do nosso patrono da educação:

Ensinar exige convicção de que a mudança é possível.