“O CEU Butantã é o CEU mais crianceiro da cidade.”

A afirmação é de Naíme Andréa da Silva, ex-gestora do CEU Butantã. A convicção da educadora deve-se a dois fatores. O aniversário da instituição é celebrado no mesmo dia que a homenagem a São Cosme e Damião, tidos como protetores das crianças. A data comemora ainda a criação do projeto BrincaCEU. Iniciado em 2015, reafirma a importância do brincar para o desenvolvimento das crianças de todas as idades.

Alinhado aos conceitos de educação integral e cidade educadora, o projeto proporciona à comunidade do CEU Butantã, especialmente aos alunos e suas famílias, um momento dedicado exclusivamente ao brincar. E no BrincaCEU o brincar é coisa séria. Configura-se como uma oportunidade para unir gerações e potencializar o coletivo, a criatividade e o desenvolvimento infantil.

“Em sua concepção, o BrincaCEU carrega a ideia de que as crianças são sujeitos. Defendemos que, em uma Cidade Educadora, o olhar delas indica o bem estar coletivo. Se está bom para os pequenos, está bom para todo mundo”, ressalta Naíme. Para garantir o protagonismo da infância, o projeto foi desenhado congregando vários núcleos do CEU. Juntos, somaram forças para oferecer um brincar de qualidade às crianças que ali frequentam. Conforme relembra Diambas Correia, analista de esportes e cultura do CEU Butantã e co-criadora da iniciativa, faltava um espaço dedicado a elas, especialmente aos fins de semana.

Os primeiros brinquedos disponibilizados no BrincaCEU foram doados pela própria comunidade, já que o CEU não tinha verba para adquiri-los. O projeto foi concebido inicialmente como uma atividade mensal. Ele começou tímido, mas efetivo, congregando alunos da educação infantil até a Educação de Jovens e Adultos (EJA), os professores e as famílias. Tornou-se assim uma opção a mais de lazer na região, especialmente depois que expandiu suas fronteiras para o resto da cidade.

Cidade que brinca

A alta adesão ao BrincaCEU não deixou dúvidas de que a iniciativa era uma demanda dos moradores. Menos de um ano depois do início das atividades, o projeto começou a receber convites para levar suas brincadeiras a outros lugares de São Paulo. Isso acrescentou um caráter itinerante à ideia original. Os CEMEIs Jaqueline e Chácara do Jóquei e a Paulista Aberta foram alguns dos territórios que receberam o BrincaCEU, cuja presença pode ser vista em outros eventos do CEU Butantã alinhados com a proposta.

Para Naíme, a expansão do projeto põe em prática o conceito de Cidade Educadora. A cidade absorvendo a escola e a escola se deixando penetrar pelas dinâmicas do território. “Em uma época em que a própria Cidade é um tema em efervescência, o BrincaCEU rompe os muros e realiza encontros temáticos. Em fevereiro é tomado pelo carnaval, novembro é negro, e por aí vai. Visitamos outros territórios, participamos da Virada da Educação e recebemos a programação de outras entidades e escolas dentro do CEU”, resume a professora.

Paulista Aberta

BrincaCEU na Paulista Aberta (Reprodução/Portal Aprendiz)

Na Paulista Aberta, as crianças do CEU Butantã desenharam suas realidades nas calçadas e na rua. Nos projetos Mão na Massa e Chá de Ideias, os alunos ocuparam uma padaria até então desativada da região, brincaram e refletiram sobre culinária. No próprio CEU Butantã, o projeto adaptou-se para participar do projeto SPCine. Na ocasião do lançamento de “O Começo da Vida”, as mães trocaram sobre aleitamento materno e assistência ao parto humanizado enquanto os bebês brincavam entre elas.

Para Naíme, que hoje atua como colaboradora no projeto e supervisora de práticas profissionais, a mistura – não só entre territórios mas, principalmente, entre pessoas -, é a espinha dorsal do BrincaCEU.  “É como a vida funciona: só a escola insiste em categorizar as pessoas por idade e fases da vida, como se só pudéssemos aprender entre os iguais. Por isso acreditamos que trazer para brincar juntas crianças de diferentes idades, suas famílias e professores é uma ruptura.”

Cultura popular

Apresentação do grupo Frô de Chita, que vai compor o time de educadoras do BrincaCEU (Reprodução/Portal Aprendiz)

Aceito pela comunidade do Butantã, o BrincaCEU é constantemente redesenhado e articula novas frentes e ações para promover o brincar e a valorização da infância. Atualmente, a equipe investe nos saberes da cultura popular e pretende aproximar ainda mais os moradores. Diambas Correia é parte fundamental neste processo.

A educadora sentiu a necessidade de valorizar também a cultura popular junto aos participantes do projeto. Segundo observava, as crianças tinham pouca afinidade com os saberes e brincadeiras tradicionais. Ela escolheu então um grupo-chave para repassar esses conhecimentos às novas gerações: as mulheres do bairro.

Diambas selecionou um grupo de 40 mulheres que frequentavam as atividades do CEU. Elas integraram o grupo Frô de Chita, que trabalha danças populares, teatro e contação de histórias. A ideia é acoplar o grupo ao BrincaCEU a partir de 2018, transformando essas mulheres nas educadoras do projeto.

“[O BrincaCEU] é multigeracional e, por conta dessa característica, pensamos em resgatar brincadeiras, lendas e cantigas com o grupo de cultura popular”, explica Diambas. “Essa interação é um dos resultados mais bonitos do projeto. Hoje a maioria das crianças mora em apartamentos ou casas sem quintal. Entender o poder do brincar junto e querer participar disso é uma apropriação muito importante”, complementa ela.

Territórios Educativos

O projeto BrincaCEU foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio. O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida. Assim, integra os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo.