“Assim como inglês, língua de sinais deve ser disciplina curricular”

Matéria publicada pela Revista Galileu

Um simples jogo de par ou ímpar se tornou um desafio para um estudante do 9º do Ensino Fundamental. Com deficiência auditiva, o jovem não compreendia que havia um número sendo mostrado, mas tentava interpretar se aquela disposição da mão significava um sinal em Libras. “Quem tem deficiência auditiva e sabe Libras tem um reconhecimento visuo-espacial, ou seja, quando você faz um movimento com as mãos, ele imediatamente procura o significado daquilo”, afirma Diany Nakamura, estudante de Licenciatura em Matemática do Instituto de Ciência e Matemática da Computação (ICMC), da Universidade de São Paulo (USP).

Percebendo a dificuldade da criança, que teve seu ensino prejudicado pela ausência de intérprete na sala de aula, Nakamura começou a estudar formas de facilitar o aprendizado. O simples fato de adotar um sinal de Língua Brasileira de Sinais (Libras) que representasse os números no lugar de fazer os números na mão já representou um avanço.

O caso é um exemplo da importância da linguagem para o aprendizado, até quando o foco é lidar com números. “O principal desafio para ensinar qualquer disciplina para o surdo é a língua. Somos uma sociedade majoritariamente ouvinte, e o surdo, inserido nela, tem uma diferença linguística”, afirma a professora Adriana Bellotti, do ICMC.

De acordo com a professora, boa parte dessa dificuldade é o atraso com que as crianças têm acesso ao aprendizado da Libras. “A língua de sinais tem de ser a primeira língua para o aluno surdo, pois é por meio dela que ele forma seus conceitos no ensino de matemática”, conta. “Para ele compreender o conceito, precisa ter uma língua, que o faz compreender tudo, para que a conhecimento dele também evolua. Linguagem e cognição andam sempre juntos”.

O ideal é que o ensino da língua de sinais comece assim que a surdez for diagnosticada.  Assim, quando chegar na escola, a criança não demorará para conseguir acompanhar a turma. Mas é fundamental, também, que a escola seja preparada. “Esse aluno está inserido num ambiente ouvinte, mas ele tem um contato mínimo com seus colegas porque muitos não sabem se comunicar com ele. Então, ele fica restrito ao intérprete”, ela afirma.

E isso resulta em uma situação onde o intérprete acaba se responsabilizando pelo aluno, quando essa função deveria ser do professor. “Essa relação entre professor e aluno deveria ser mais próxima por meio de um conhecimento básico da língua de sinais. O professor não precisa ter domínio completo da língua, mas, pelo menos, um conhecimento mínimo para incluir o aluno no contexto das explicações”, diz.

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Desde 2005, um decreto determina que os  cursos de licenciatura no país devem oferecer uma disciplina curricular obrigatória de Libras, enquanto os bacharelados devem tê-la como optativa. Pedagoga e doutora em educação, é Adriana a responsável pela disciplina na USP. Ela dedica sua carreira acadêmica à pesquisa e docência na área de educação de surdos

O desafio é grande. Um exemplo é a geometria. Inicialmente, achamos que é mais simples para os alunos surdos aprenderem esse conteúdo, por ser mais visual. Mas, apesar de captar a imagem com mais facilidade, eles ainda precisam compreender o conceito do que é um triângulo, qual seu sinal, o que são ângulos, por exemplo. “Temos que proporcionar atividades práticas para que ele compreenda o conceito”.

Para Adriana, o ideal seria que, além dos professores, toda a sociedade aprendesse pelo menos um básico da linguagem de sinais. “As pessoas precisam valorizá-la enquanto língua, em vez de gestos ou mímica. Ela tem características próprias que a definem enquanto meio de comunicação e expressão da comunidade surda”, afirma a professora, que complementa. “Se é importante, assim como o inglês ou espanhol, por que não ser uma disciplina curricular para as crianças? Se for assim, no momento em que elas precisarem usar a Libras, será natural”.