AS LIÇÕES DO CAPÃO

Você já ouviu falar no bairro Capão Redondo? Situado no extremo sul de São Paulo, o distrito já foi considerado um dos mais violentos da cidade. Contudo, na mesa “Lições do Capão”, o público do Festival Path pôde conhecer quatro iniciativas que acontecem do outro lado da ponte que desmistificam a lógica da violência e são protagonizadas por agentes da própria comunidade.

“Quando o Bruno Capão e eu entramos no Path, ele me disse: olha só onde nós chegamos.”

“Quando o Bruno Capão e eu entramos no Path, ele me disse: olha só onde nós chegamos.”

"Quando cheguei ao Capão, há 15 anos, o sonho dos meninos era sobreviver ao dia seguinte"

Dona Eda Luiz, diretora do CIEJA Campo Limpo (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos), escola da rede municipal da cidade, abriu a mesa compartilhando seu trabalho no bairro. Eda utilizou sua bagagem formativa pedagógica para iniciar um diálogo com iniciativas que já existiam no Capão, em 1999. Anos se passaram e, hoje, o CIEJA Campo Limpo é considerado modelo de um projeto de educação bem sucedido internacionalmente.

Usando o diálogo, Eda foi uma das primeiras pessoas a ouvir as necessidades de quem vive no local. “Quando cheguei ao Capão, há 15 anos, o sonho dos meninos era sobreviver ao dia seguinte. Hoje eles estão realmente sonhando”, conta.

O CIEJA recebe 1.300 alunos, em uma casa de portões abertos no Campo Limpo, sendo 282 deles portadores de necessidades especiais. “A comunidade pode opinar, porque fazemos assembleias e damos voz a esses jovens e adultos”. Eda, que é considerada uma mãe dentro da comunidade, concluiu dizendo que o bairro ainda convive com “o massacre do menino preto e pobre”, mas que a luta continua.

"Até o ONU chegou lá, viu que era perigoso, e foi embora”

André Luis, de 19 anos, fundador da TV DOC, foi o segundo a compartilhar a trajetória de seu projeto de engajamento social. A TV comunitária se propõe a desenvolver e dar voz aos jovens da região, através dos meios de comunicação multimídia. André deu uma aula de superação e articulação ao compartilhar sua história. “Conheci o lado obscuro do Capão. Até o ONU chegou lá, viu que era perigoso, e foi embora”, disse.

Após passar por momentos difíceis em sua adolescência, o estudante começou a pensar “fora da caixa” e criou a TV comunitária do Capão em seu próprio quarto. O objetivo da TV é mostrar o lado bom das “quebradas” e levantar a autoestima de quem mora na comunidade. A TV organiza oficinas para a produção de curtas-metragens e palestras. “Quando você não tem uma causa, você está morto”, afirmou.

Projeto Viela

Anderson Agostinho, um dos criadores do Projeto Viela, desenvolvido há 7 anos, mostrou que a escolha de um caminho de vida mais fácil não o agradava. Buiu, como é conhecido no distrito, criou a iniciativa social que transforma a realidade de jovens do Jardim Ibirapuera, através da cultura e do esporte, acolhendo sonhos e estimulando potenciais.

O Projeto Viela participou, em 2015, de um programa da Fundação Fenômenos, o Impulso - uma mentoria individualizada que contribui com jovens que “buscam um novo olhar para suas iniciativas”. Participam desse programa lideranças de organizações, negócios sociais e coletivos comunitários que identificam seus desafios e co-criam com seus mentores seus planos de ação. Em 2015, cem jovens foram atendidos e a sede do Viela foi construída.

“Não é porque você tem escassez de recursos financeiros, que não pode criar algo novo."

Último, mas não menos importante, Bruno Capão, de 27 anos, compartilhou suas experiências no empreendedorismo social. Depois de sair da FEBEM e realizar um dos seus sonhos, que era ser lixeiro, Bruno criou junto com seu irmão, José Carlos, o projeto Sustenta CaPaõ - uma padaria artesanal comunitária, onde cada detalhe contém material vindo de reciclagem ou reutilização própria da comunidade.

Para Bruno, o maior recurso são as pessoas e não o dinheiro. “Viver com menos é ter a mudança dentro de você”, disse. Morador do Capão, Bruno participou de um episódio do Projeto Imagina Você e conta que “o maior recurso são as pessoas. Quando estamos conectados com o eu maior, coisas incríveis acontecem”.

Ele acredita que é preciso desmistificar a ideia de escassez nas periferias. “Não é porque você tem escassez de recursos financeiros, que não pode criar algo novo. Ter menos me ajudou a enxergar as possibilidades de empreender”, concluiu.

por Mariana Nogueira