Imagem com 3 sugestões para alfabetização no EJA

Confira o relato da professora Mara Mansani publicado pela revista Nova Escola e compartilhado na íntegra:

Um dos períodos de maior aprendizagem em meu trabalho como professora, mais combativo e produtivo na aprendizagem dos alunos foram os mais de dez anos dedicados à Educação de Jovens e Adultos (EJA).

De maior aprendizagem porque na EJA a troca de conhecimento entre aluno e professor é única. É um misto de sabedoria de vida, descobertas, curiosidades e uso da aprendizagem na prática, na vida real. Como aprendi com meus alunos! Muitos deles, com muito mais experiência de vida do que eu.

Combativo porque em todos os anos defendi o direito de meus alunos estudarem. Briguei para mantermos as salas de aula abertas e para eles terem acesso a materiais e recursos como todos os outros alunos. Na EJA todos os dias são dias de exercer a cidadania.

Mais produtivo na aprendizagem dos alunos porque tive a oportunidade de enxergar resultados positivos que impactaram e transformaram a vida de meus alunos. Tirar uma carta de motorista, se defender da violência doméstica, lutar pelo seu direito como consumidor, se descobrir como autor escritor, conseguir um emprego, ler e entender um documento. Essas e muitas outras coisas aconteceram com meus alunos na EJA, mas talvez a mais impactante em todos eles tenha sido sair da condição discriminatória e vexatória de estar analfabeto.

Imagem das mãos de uma mulher folheando seu caderno
(Pixabay)

Mas o trabalho com a EJA, apesar de maravilhoso e gratificante, não é fácil. Manter os alunos em sala, motivados, sem evasão, é uma tarefa árdua e que exige um bom planejamento do professor. Não dá para usar a mesma abordagem pedagógica e as mesmas temáticas das crianças. É preciso explorar temas significativos, que façam parte da vida dos alunos, que tenham sentido para eles, ao mesmo tempo em que dão conta do currículo.

Minhas turmas de EJA eram praticamente salas multisseriadas. Vários níveis de aprendizagem, de pessoas que estavam se alfabetizando a outros que correspondiam ao 5º ano do Ensino Fundamental. Como dar conta de uma diversidade tão grande?

Abaixo, listo atividades práticas e simples qualquer professor pode desenvolver com seus alunos de EJA e que eu desenvolvi com os meus, nas cidades de Tapiraí e Cotia.

Uso de textos do cotidiano: Letras de músicas

Sempre pesquiso o gosto musical de meus alunos. Com eles, além de debater questões culturais, proponho atividades de leitura e escrita. Em uma de minhas turmas, meus alunos fizeram uma versão para a letra da música “Com que roupa?”, de Noel Rosa.

Veja os versos de Noel Rosa:

Pois esta vida não está sopa
E eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou
Pro samba que você me convidou?

Agora a versão de meus alunos:

Com que roupa eu vou?
Pra festa que você me convidou?

Vou com aquela camisa listrada,
gravata borboleta,
Que eu ganhei do meu amor!

Para as compras que você me convidou?
Vou de bermuda, camiseta,
chinelos de borracha,
carregando as compras em caixa
e um pacote de bolacha
Que ganhei do meu amor!

Com que roupa eu vou?
Para a praia
Que você me convidou?
De maiô, de canga,
Na praia de Salvador!
Talvez amanhã, eu vá!
Juntinho com meu amor!

Essa troca de referências musicais pode ser interessante tanto para apresentar a eles novas categorias e novos artistas quanto para você, professor, ampliar seus conhecimentos!

Uso de textos do cotidiano: Folhetos de supermercado

Folhetos de supermercados rendem boas situações para aprendizagem matemática e de outras disciplinas. Em minhas turmas, eu costumava dar um desafio que engajava bastante. A proposta era:

“Você tem R$50,00 para gastar no supermercado. Leia com atenção o folheto dos produtos. O que você pode comprar com esse valor?”

A ideia era chegar o mais próximo possível do valor estabelecido, mas muitos chegavam até mesmo ao valor exato. Quando passavam do valor retiravam algum produto, quando não chegavam a ele acrescentava outro, mas sempre com a orientação de sobrar apenas o que não desse para comprar mais nada.

Essa atividade simula a situação real de compras no supermercado, o que fazemos e os alunos da EJA também para adequar o que temos às nossas necessidades. Ainda na temática dos preços, é interessante pedir para a turma pesquisar valores, quantidades e qualidade, ligar para o Serviço de Atendimento ao Consumidor para pedir informações sobre algum produto, e dessa maneira trabalhar a oralidade e a criticidade. O código de defesa do consumidor era também leitura obrigatória em sala de aula.

Escrita de manuais e tutoriais

Para valorizar a sabedoria e a vivência dos meus alunos, eu costumava propor a produção escrita de manuais e ou tutoriais que pudessem de alguma forma facilitar a nossa vida. Por exemplo: as donas de casa escreviam folhetos com dicas práticas de como tirar manchas de roupas, outros grupos escreviam sobre como ir bem em uma entrevista de emprego, outro dava dicas de como criar os filhos, etc. A ideia é valorizar o conhecimento que eles trazem para explorar a escrita.

Como vocês puderam perceber, são todas atividades bem simples, mas que rendem muita aprendizagem. Aliás, ainda tenho dúvidas sobre quem aprendeu mais, se meus alunos ou eu como professora. Só tenho boas recordações e muitas saudades. Escrever esse texto sobre meus alunos da EJA me emocionou extremamente.

Um grande abraço a todos, em especial nos meus eternos alunos da EJA! Até a próxima semana!

Post compartilhou na íntegra a publicação Alfabetização na EJA: Leitura, escrita e cidadania, da professora Mara Mansani para a Nova Escola.