Passados 16 meses desde meu primeiro dia de trabalho numa escola pública e milhares (literalmente) de aulas me ofereceram a oportunidade de interagir com profissionais brilhantes e observar como trabalham outros professores, a quem aprendi a cultivar admiração, respeito e profunda empatia. São pessoas que reconhecem e admitem os desafios de trabalhar em redes públicas de ensino e ainda assim, fazem acontecer. Ainda que exista a sensação de viver um “salve-se quem puder” na Educação brasileira, espero aqui conseguir compartilhar motivos para sermos otimistas.

Como em qualquer organização, pública ou privada, coexistem bons, medianos e maus profissionais nas escolas do país. Podem ser diferenciados pela forma como percebem a si próprios no trabalho e assumem (ou não) responsabilidade direta pela aprendizagem dos alunos. Como disse a querida amiga e educadora Janaína Barros, “é preciso entender o lugar social que ocupamos enquanto professores para não acabarmos negociando o inegociável”Definitivamente, não há espaço para culpa e autoflagelação quando se trata de fazer uma criança aprender.

Em tempo, no livro “Por que fazemos o que fazemos?” (Editora Planeta, 2017), o filósofo e educador Mario Sergio Cortella aborda a busca por propósito no trabalho e desvenda o tema com a precisão científica de um pesquisador e a amigável informalidade de quem explica um conceito novo a um leigo. Em meio a certa padronização de uma visão de mundo que busca tornar tudo fácil e intuitivo, será necessário (e possível) simplificar o ato de instruir e educar?

Em certo ponto Cortella conceitua a desmotivação, algo inerente ao ser humano, como a “perda da potência para fazer algo que passo a julgar que não vale mais”. Seja por consequência do tempo de carreira, legítimo cansaço físico/emocional, experiências, valores pessoais próprios ou por influências externas, muitos profissionais da Educação não mais enxergam a potência que um dia os motivaram a ingressar na sua área de trabalho, tenham sido inicialmente atraídos por vocação ou simples e legítima necessidade financeira.

Neste artigo tenho cuidado em utilizar uma definição particular do que seria o “bom” professor (com especial cuidado em representar uma categoria dominada por mulheres). Ainda que se tratando de um conceito subjetivo e sujeito a interpretações, fiz das minhas vivências em sala de aula, escolas e de conversas com alunos, pais e outros profissionais, a base para identificar traços comuns aos professores que alcançam, a meu ver, consistentemente bons resultados de aprendizagem, sendo alguns deles:

1) Habilidade de engajar e inspirar
2) Comunicação assertiva e empática
3) Busca pela excelência
4) Curiosidade, otimismo e crença na construção coletiva do aprendizado

Reparem que intencionalmente evito dizer que esses professores nasceram ou simplesmente são assim por influência genética ou mesmo divina. Afinal, há certamente envolvida nessa questão uma percepção particular da possibilidade de todo profissional se aperfeiçoar continuamente. Reforço que enquanto Professor, negar a possibilidade de remodelar nossos hábitos, costumes e comportamentos de acordo com as experiências que vivenciamos seria rejeitar o princípio fundador da nossa atuação: orientar para a mudança e crescimento.

Para cada pesquisa que leio, que reafirma a baixa influência da formação continuada sobre a atuação dos professores após os anos iniciais em sala, me apego às conversas com outros colegas que demonstram as incansáveis tentativas de superar a inércia (própria e do sistema) e a acomodação que tendem a se instalar no decorrer dos anos. São profissionais que se atualizam constantemente, ressignificam sua atuação e se esforçam para desenvolverem aulas eficazes, capazes de garantir aos alunos novas habilidades e competências.

Felizmente, vários professores buscam se moldar de acordo com o seu contexto de atuação, entendendo qual é o profissional que precisam ser para seus alunos. Isso começa em sala de aula, por exemplo, quando fazem pequenas adaptações de maneira a atender o perfil de cada turma. Inevitáveis perguntas: imaginar que salas com 40 alunos devem se sujeitar ao seu estilo imutável de aula não seria negar a individualidade de cada um ali? E o quanto nos permitimos, nos mais variados ambientes profissionais, o exercício de adaptação ao contexto?

Penso ainda que os bons profissionais, de qualquer área do conhecimento, se destacam por perceberem e incorporarem em suas carreiras desde muito cedo o desenvolvimento contínuo como pré-requisito de uma melhor qualidade de vida, satisfação pessoal, e claro, desempenho profissional. Cito “desempenho” por último por acreditar que isto seja mais a consequência do processo do que ponto de partida, como alguns tendem a assumir.

E quando falo de desenvolvimento, me refiro principalmente às atitudes simples — de pequenos cursos online a projetos extracurriculares — que cabem no nosso já sobrecarregado dia-a-dia e que nos ajudam a encarar a rotina de trabalho de forma otimista; que nos despertam para novos desafios e impedem que passemos a tratar o trabalho como uma tarefa automatizada e, por consequência, carente de vida própria.

Percebi que bons profissionais aprendem a cultivar apreço permanente pelo que fazem.

Assim, aqui apresento as 8 competências que a mim parecem facilitar a atividade profissional dos “bons” professores e que deveriam ser desenvolvidas por profissionais de qualquer área de conhecimento. Porque mudar, ou melhor, se desenvolver, é preciso!

Habilidades professores: foto de pátio de escola pública

1) Testa e aprende com o “erro”

Todo professor admite que para despertar o interesse de uma turma e mantê-la engajada, desperta e motivada ao longo de uma aula, é necessário testar várias vezes. Não foram poucos os momentos em que acreditando conhecer meus alunos, elaborei uma aula “incrível”, porém ineficaz em fazê-los aprenderem. Ou ainda, aquele projeto escolar “impecável” que jamais atingiu o resultado previsto de engajar a comunidade.

Como se não bastasse a necessidade, intrínseca à profissão, de se reinventar constantemente, empregar diferentes metodologias e elaborar atividades para cada perfil de aluno, bons professores reconhecem e buscam minimizar a influência de fatores externos nas suas aulas. É o caso de um colega que sempre dispõe de aulas diferentes para dias de chuva, muito quentes, evitando assim correr o risco de jogar planejamento por água abaixo.

Isso faz com que a convivência com os “altos e baixos” da profissão — de uma verdadeira experiência de aprendizagem até uma aula esquecível — passem a integrar um único processo de desenvolvimento baseado na lógica do teste de hipóteses. Cada “erro” passar a ser visto como uma tentativa testada ou simplesmente uma forma de “não fazer”, o que por si só já é muito valioso e abre espaço para novas experimentações.

A mim soa cada vez mais evidente ser graças aos incansáveis e repetidos esforços de buscar alcançar uma aula excelente (aquela em que todos aprendem), que se constroem as melhores e mais certeiras oportunidades de aprendizagem.

· Ainda que consideremos aspectos específicos de cada cultura organizacional, será que nos permitimos ver as tentativas frustradas como condição necessária para alcançar um resultado que surpreenda e vá além do esperado?

2) Pede e oferece feedbacks

A implementação de uma cultura de feedbacks em grande parte das empresas ainda é um enorme desafio. Primeiro, porque não é fácil dar feedbacks (não somos um povo que fala tão abertamente sobre nossas necessidades de melhoria, que dirá dos outros) e segundo, porque nem todo mundo sente-se confortável em escutar comentários sobre a sua atuação profissional, ainda que de forma objetiva e desvinculada de julgamentos.

O problema é que sem esse tipo de confiança e abertura na comunicação entre membros de uma equipe, dificilmente se criam oportunidades de reflexão mais profundas e transformadoras. Como seria possível falar de Plano Político Pedagógico (documento que define a identidade da escola) se não há expectativa entre os membros do grupo de que seus pares tenham liberdade de apontar aperfeiçoamentos que podem beneficiar a todos? É possível trabalhar em equipe quando não há esse espaço?

Um dia, ao realizar a devolutiva de um trabalho para alunos do 9º ano, disse ao grupo: “O trabalho de vocês estava bom, seguiu as instruções básicas que pedi e contou com um toque fantástico de criatividade. O que acham que poderia ter sido melhor?” Para minha surpresa: “Nada, professor, acho que não tem nada para melhorar.”

Naquele dia meu objetivo foi fazê-los entenderem que sempre existem oportunidades de melhoria. O que é bom deve ser valorizado e destacado objetivamente, enquanto as oportunidades de avanço devem receber tanta ou mais atenção, no sentido de incentivar e permitir uma reflexão crítica sobre determinada obra ou comportamento.

Bons professores, além de excelentes na arte de escutar, sabem ir até seu diretor, coordenador, outros professores e aos alunos para perguntar sobre práticas inovadoras, pedir ajuda e solicitar avaliações genuínas a respeito do seu próprio trabalho. Eles entendem que uma reflexão crítica sobre a sua forma de atuação é condição necessária para que o mesmo aconteça com os alunos.

· No seu ambiente de trabalho, há uma cultura de feedbacks estabelecida? Você se sente confortável em pedir ao seu superior? E já ofereceu um a alguém?

3) Constrói coletivamente

A profissão de professor pode ser um tanto quanto solitária. Por mais surpreendente que isso possa soar, já que estamos constantemente cercados por alunos, profissionais da escola e de outros colegas, me refiro a um tipo de solidão que não aquela definida pela ausência de contatos físicos ou por situações de isolamento.

Trata-se de uma solidão decorrente da ausência de políticas estruturadas de formação continuada; da enorme carga de trabalho e atividades envolvidas (correção de provas, elaboração de aulas, adaptação de conteúdos); da dificuldade de contar com o apoio de uma sobrecarregada (quando existente) Coordenação Pedagógica e claro, das condições adversas de infraestrutura, sobretudo na Educação pública.

Nos ambientes corporativos por onde passei acreditava ser a competitividadeum elemento que tanto ajudava (quando incentivava o atingimento de objetivos) quanto prejudicava (quando, por exemplo, sobrepunha metas individuais às coletivas). E de certa forma, antes de ingressar na escola pública, idealizava um espaço no qual a vontade coletiva de oferecer uma Educação de qualidade se sobressairia às tentativas de fazer da escola um instrumento para atender interesses individuais.

Minha visão romantizada de até então ignorava ser a escola uma combinação de seres humanos dos quais emergem interesses particulares e onde sobressaem egos inflados e conflitos (não saudáveis) de opinião. Ainda que direcionados pelo discurso de alcance do “bem comum”, trata-se de espaço tão ou mais politizado (com “p” minúsculo) que qualquer outro ambiente de trabalho. Em meio a esse desarranjo de vontades, nos cabe a função de mediar pais, colegas, gestores e governo, de modo a fazer acontecer.

Os “bons” professores entendem que para lidar com essas questões de forma pragmática e resolutiva, é preciso que se construa um senso de coletividade que inspire e agregue pessoas em torno de projetos transformadores. É claro que se espera do Diretor da escola, enquanto liderança formal, a proatividade de buscar fomentar tais comportamentos entre a equipe, porém nem sempre trata-se de tarefa trivial.

Bons professores percebem a importância de trabalhar em equipe e agregar as pessoas em torno de si, sem para isso depender de uma hierarquia formalizada. Tampouco me refiro a ignorar e sobre passar outros profissionais. Pelo contrário, acredito que devemos respeitar os espaços de cada um enquanto buscamos articular coletivamente pautas relevantes.

Na Educação, a mudança precisa ser baseada na colaboração, troca e concepção de construção de um bem coletivo: público, duradouro e intergeracional.

· E você, sente que nos ambientes por onde transita consegue agir de modo a ser um elemento que aumenta a coesão e a sinergia da equipe? Se não, como fazer para sê-lo sem depender da autoridade formal de um(a) chefe ou superior?

4) Domina o saber técnico e vai além

Foi-se o tempo no qual empregado do setor público era sinônimo de profissional acomodado, pouco produtivo, preso à burocracia. Contudo, de todas as minhas experiências na escola pública, uma das mais frustrantes é sem dúvida a de me deparar com certos profissionais que se limitam à função “pela qual são pagos para exercer”. Me refiro ao porteiro que se recusa a auxiliar numa inspeção de alunos; ao professor que não participa de uma atividade comunitária voluntária com responsáveis pelos alunos; à merendeira que rejeita auxiliar pontualmente numa limpeza do ambiente.

Sei ainda ser improvável que um professor consiga se limitar a uma única função na escola, especialmente em contextos mais vulneráveis. É imposta a ele a necessidade de exercer a função de psicólogo, mãe, pai, e sabemos que essa multiplicidade de papeis, imposta por uma sociedade incapaz de acolher os jovens em sua totalidade, cobra seu preço, tanto físico quanto emocional. Não são poucos os que adoecem, sofrem com crises de ansiedade, depressão, problemas vocais e chegam à exaustão.

Reconhecidos os desafios, chamo atenção para algo que depende exclusivamente de uma preocupação interna em agir de modo a transformar o ambiente a nossa volta. Na psicologia, Julian Rotter definiu o conceito de lócus de controle como o grau ao qual as pessoas acreditam ter controle sobre os eventos de suas vidas, em oposição às forças externas além do controle próprio. Pessoas com um elevado grau de lócus de controle interno acreditam que os eventos derivam em grande parte de suas próprias ações.

Aqui me refiro a profissionais que se perguntam: o que eu faço com o que tenho disponível em prol dos meus objetivos e propósitos na Educação? Do que faço na minha posição privilegiada enquanto professor com alunos que não possuem outras referências e oportunidades? São pessoas que tentam fazer acontecer sem depender dos recursos aparentemente disponíveis; que não aceitam calados o ordenamento natural das coisas supondo “ser assim que as coisas são”. De quem reconhece o lugar social que ocupa e age sistemática e objetivamente para transformá-lo.

A história de pessoas que empreendem está diretamente associada a situações em que, cansados do status quoforam lá e fizeram, assumindo que caso contrário, ninguém mais o faria. Empreendedores iniciam movimentos, perseveram, criam oportunidades, aceitam desafios e assumem que o necessário a se fazer é tudo que ainda não foi feito.

Na escola, bons professores não se limitam ao ensino de conteúdos e valores em sala de aula, ainda que essa seja sua função primordial. Por sinal, duas coisas ainda me surpreendem: 1) ver que muitos colegas persistem em alegar ser a “transmissão de conteúdos” sua única função na escola e 2) de que imaginam ser possível construir uma escola em que todos aprendem quando cada um pensa de forma tão fragmentada.

Mas cuidado: uma postura empreendedora pode provocar nos profissionais mais acomodados uma sensação de que estão sendo atacados. No entanto, nesse caso o “inimigo” é invisível: não percebem ser o “ataque” nada mais que o confrontamento com a própria inércia e acomodação diante dos problemas.

Bons profissionais, independente da área de trabalho, enxergam e criam oportunidades de transformação; não se conformam com um ambiente medíocre; inovam, testam, aprimoram e empreendem a mudança que querem ver.

· Em nossos ambientes profissionais, estamos prontos para assumir uma postura assim frente aos desafios que nos são postos? Qual o preço a se pagar por provocar o sistema a sair da inércia? E estamos dispostos a assumir tais responsabilidades?

5) Pratica a presença

Nas organizações ocidentais, o grande termo da moda é o tal mindfulness. Como resultado da perda da capacidade de vivermos plenamente no presente em meio a um cenário de excesso de estímulos e constante desatenção, as empresas estão oferecendo cursos, capacitações, trazendo “gurus” indianos e um exército de coachs para ajudar seus empregados a reencontrar esse “estado mental de controle sobre as experiências, atividades e sensações do presente.”

Agora reflita: você acharia possível entrar uma sala com 35°C, 40 alunos de 11–13 anos e não estar presente? É provável que na sua “ausência” um aluno acabasse pendurado no ventilador (quebrado, por sinal). Brincadeiras à parte, a profissão nos exige esse estado de atenção permanente com o que está acontecendo nesse exato instante com o nosso aluno. Bons professores reconhecem a importância e praticam o estar inteiro (de corpo e alma) em sala de aula.

Aliás, essa demanda por presença costuma ser mais benéfica do que causadora de estresses. Uma sensação compartilhada por muitos professores revela o estar em sala de aula como uma terapia: “comecei o dia estressado e preocupado, mas quando entrei em sala, tudo se acalmou”. Nesse caso, não tem tanto a ver com o comportamento dos alunos, mas sim com o fato de que melhora porque nos colocamos presentes.

Naquele instante, as preocupações com as contas, problemas da casa, filhos na escola e roupa suja, tudo isso passa a ser menos relevante do que a atenção e a presença que você pratica junto com seu aluno. Estar presente facilita o engajamento, melhora a sua respiração, privilegia a interação entre as partes e contribui para um clima mais equilibrado, mesmo com todos os desafios de sala de aula.

Experimente passar uma aula inteira “ausente” e não há resultado mais previsível do que de provocar o desinteresse dos alunos. Eles são os primeiros a sentirem se você está ou não ali. Claro que muitos profissionais desenvolvem habilidades teatrais para minimizar essa ausência e outros entram no que considero o “modo automático”.

Esse automatismo é sinal de quem já entra em sala pensando em sair. De quem entra em corpo, mas a alma já não quer se dedicar àquilo. Mas, se a sua prática já se assemelha mais a de um robô do que a de um ser humano, faz algum sentido continuar em sala?

· E você, está vivendo acomodado no automatismo negativo da rotina ou faz dela uma forma de se encontrar e estar presente? O que você faz para estar presente no dia a dia? E se está insatisfeito no seu ambiente profissional, o que o impede de mudar?

6) Organiza, planeja e… improvisa

“Ser professor é dominar a arte de lidar com incertezas”. Esse é um provérbio brasileiro dito por mim 2 meses depois de começar a dar aulas para as turmas de 11–13 anos. Digo isso porque não bastasse o que eu fizesse em termos de organização e planejamento, havia sempre alguma coisa que eu não tinha previsto, seja o calor, ausência de metade da sala, uma chuva repentina que impedia os alunos de chegarem, um apagão ou mesmo uma mudança repentina no horário da escola. E tudo isso, claro, no mesmo dia.

Ser professor me ensinou muito sobre organização, sobretudo pela necessidade de cumprir horários de aula rigorosos, de documentar o aprendizado dos alunos, preparar, corrigir, aplicar e entregar avaliações; de planejar aulas e participar de formações, e toda uma infinidade de atividades que requerem de você atenção, preparo e uma boa dose de planilhas, post-its e calendários.

Enquanto ainda tentava me organizar em meio a 17 turmas e algo próximo de 600 alunos, percebi que bons professores tinham sempre planos B, C e D preparados. A experiência em sala de aula, a capacidade de antecipar os desafios e pensar em soluções para eles, tudo isso favorecia que cada aula se tornasse uma oportunidade de aprendizagem, mesmo que fosse necessário abrir mão da aula planejada e adaptar atividades. Foi quando percebi que planejamento e improvisação andam juntos.

O profissional que antecipa dificuldades e cria planos de como lidar com elas sabe que por mais cuidadoso que seja haverá sempre forças externas exercendo pressão para que o plano não transcorra como pensado. Seja na escola ou numa agência de publicidade, o profissional que antevê e incorpora a incerteza como parte fundamental do seu dia-a-dia sai na frente pela capacidade de solucionar os desafios que lhes são impostos.

· Afinal, já parou para pensar que o “simples improviso” carrega anos de experiência, organização, planejamento, testes e tentativas sem sucesso? Afinal, o que interpretamos como improviso não estaria mais para um excelente planejamento?

7) Comunica, motiva e inspira

Se existe uma habilidade que eu admiro nos bons professores e tento desenvolver a cada dia é a de inspirar e motivar. Para falarmos de Educação é preciso reconhecer seu caráter de longo-prazo, com altos e baixos, por vezes penosa, construída pouco a pouco, com esforço e dedicação, sobre bases em constante transformação. Basta pensar que o aluno para quem dou aula hoje é muito diferente daquele com quem estarei no final do ano, e isso nos cria tanto desafios quanto enormes oportunidades.

Primeiro, porque para qualquer relação prosperar é necessário que haja uma boa comunicação entre as partes. Enquanto entusiasta de práticas de comunicação não-violenta, percebo o quanto o ambiente escolar ainda carece de profissionais e práticas que nos ajudem a nos conectarmos de forma mais genuína, quebrando as barreiras da hierarquia aluno-professor em prol de uma Educação mais humanizada, dialógica, fruto da interação e não da mera exposição de conteúdos.

Falo também sobre professores a quem admiro pela habilidade com que motivam o outro através da forma como se comunicam, demonstrando cuidado pelo aprendizado, olhando no olho, chamando pelo nome, se interessando pelos sonhos dos alunos, os ajudando a sonhar e compartilhando altas expectativas. Eles acreditam que seus alunos são capazes e merecem mais e melhores oportunidades.

Na semana passada, tive a feliz surpresa de receber de um aluno a seguinte mensagem: “Professor, obrigado por perguntar como eu estava me sentindo hoje na aula. Poucos professores fazem isso.” Um gesto despretensioso foi suficiente para mudar o dia de um aluno, agora imaginem o poder disso em um sistema de Educação? E mais, qual seria o efeito de pequenas atitudes assim numa escala global?

Para inspirar não é preciso ser a pessoa mais carismática; tampouco ter a beleza de um ator global ou ser pessoa tecnicamente mais preparada para determinada função. O processo de inspirar outros seres humanos possui bases muito mais simples: carinho, admiração, respeito, interesse e cuidado. Cabe a nós, professores ou profissionais de qualquer área de atuação, querer reconhecer e assumir essa responsabilidade.

· Você sente que em seu ambiente profissional existem pessoas que demonstram esse cuidado com o outro? E você, de que forma procura se comunicar e inspirar outras pessoas? Através do afeto, do esforço, da persistência, do cuidado?

8) Respeita e acolhe a diversidade

Para refletir sobre a escola pública que queremos para as futuras gerações, precisamos pensar sobre o quanto ela se coloca aberta, disponível e preparada para acolher a diferença. Infelizmente ainda me deparo semanalmente com casos de bullying, homofobia, misoginia, transfobia, racismo e preconceito (religioso, social), seja em sala de aula ou em casos encaminhados para mediação na coordenação escolar. Contudo, vejo que bons professores estão conseguindo encontrar formas de fazer diferente.

Vale mencionar que situações assim não ocorrem apenas por falta de informação. Afinal, se voltarmos a 10 anos atrás, quando sequer conversávamos sobre o tema, identificamos avanços importantes que inegavelmente contribuíram para a discussão sobre a temática da diversidade sexual e de gênero, por exemplo, mesmo que ainda tenhamos um longo caminho a percorrer. Nas escolas o assunto é (finalmente) cada vez mais abordado, enfrentando esperada resistência, inclusive de outros professores, e aos poucos vem deixando de ser considerado tabu.

Reconheço e admiro o trabalho de bons professores que buscam desenvolver projetos que acolhem e trazem a temática da diversidade para dentro de sala de aula, passando pela valorização da mulher, participação política, reconhecimento da identidade negra e das peculiaridades da formação da cultural local. Tratam-se de questões fundamentais quando pensamos na escola pública como ponto de partida do convívio em sociedade e da formação integral de uma pessoa.

Bons seres humanos, não apenas professores, fazem da diversidade uma ferramenta para se reconhecerem no mundo. Cabe a nós, professores, publicitários, pedreiros, padeiros, jornalistas e profissionais de todas as áreas de atuação, fazermos do acolhimento ao outro, e não apenas da tolerância, elemento central das nossas relações. Em um mundo que se reconhece cada vez mais polarizado, talvez seja essa a única forma de construirmos mudanças positivas, duradouras, intergeracionais e com impactos profundos para as futuras gerações.

No seu ambiente profissional, de que forma a questão da diversidade é abordada? Há um discurso institucional de tolerância ou de acolhimento? E sente que há espaço real para discussões? Se não, como construí-lo aos poucos?

Pedro Sarvat é professor na rede pública estadual de Campo Grande (Mato Grosso do Sul) pelo Ensina Brasil. Críticas, sugestões, dúvidas e elogios são todos bem-vindos. Ele está disponível através do: psarvat@gmail.com