PROFESSOR, ME OLHE NOS OLHOS

por Liz Dórea

Mamãe, dentre outros segredos, já foi pedagoga. Nunca falou palavra sobre a faculdade. Provavelmente, suspeito, porque aprendeu o que é ensinar sujando as botas no barro da vida concreta. Minha mãe é filha da multidão, amante do céu aberto, gente com gente demais dentro de si. É como existência que não sacia e precisa sentir o calor que só um sussurro no pé do ouvido abrasa. Por isso, não me espanto que tenha largado os artigos acadêmicos e metido o corpo no mundo. Mas mesmo a alma mais braba sentiria as pernas bambearem diante dum quadro negro cravado numa parede de pau-a-pique, empesteado pelas partículas de areia cuspidas pelo chão batido. Ainda assim, no miolo do agreste baiano, onde deus parece ter se esquecido das vidas que ali pelejavam pra sobreviver, minha mãe acreditava, até a medula dos ossos, no tento de ensinar. Talvez educação seja ainda sua razão de estar no mundo. Mas quando a maior dúvida dum estudante é saber se vai ter o que comer na janta, educador nenhum tem o privilégio de arrebitar o nariz.

Tampouco força, menos ainda recurso. Numa escola agrária dum município paupérrimo, quem prepara a aula é a pedagogia da miséria. A pedagogia da violência doméstica; do alcoolismo, do trauma, da fome. Então, a professora baixa a cabeça e olha com respeito pr’aquele corpo desnutrido e guerreiro, porque dar vida à educação onde a própria vida é um fiapo dói. E nunca deixou de doer. Amanhã, se a memória cair nos pensamentos de mamãe, aposto a alma que seus olhos vão aguar. Não à toa, tive donde puxar o hábito do choro incontido. Mas, assim como eu, ela reconheceu que seus ombros não suportariam o mundo. E não suportaram. A escola do sertão virou memória política e eu zarpei de casa pra estudar em São Paulo. Alguns anos galoparam desde lá. Mas nunca vou me esquecer do que ela ainda me disse antes de partir: empatia, Lica. Aquelas crianças iam pra escola pela merenda. Escola era pra sobreviver. E eu, gozando de toda a condição material do mundo, fui embora, com a garganta seca de engolir.

Diante de mim, desterrada e pequena, a Universidade. Sentei em suas cadeiras (que em minha utopia Hollywoodiana seriam poltronas num anfiteatro) e esperei o momento de olhar nos olhos daqueles homens e daquelas mulheres que galgaram o professorado na mais abastada instituição de ensino da A m é r i c a Latina. O instante não chegou. No fim do segundo ano de graduação, não espero mais. Já sigo feito uma lâmpada queimada: de olhar defunto e com a consciência de que ninguém, lá do alto do ofício, percebeu que um dia ele cintilou. Daí, daquele ano em diante, me fiz apática e impenetrável tal qual todos os excelentíssimos professores doutores defronte de mim. Não levem a mal meu instinto; mas é que sobrevivo num regime de redução de danos. Foi preciso descolar meu peito do corpo pra não espumar. Pra não endoidecer com a total ausência de sentimento da educação universitária. Eu, você e eles. Nada, senão, caixas-pretas assertivas, com grande potencial de armazenamento.

Poderia ser diferente? Estou exigindo demais? Não, não quero que saiba meu nome, professor. Quero que me olhe nos olhos. Quero que me enxergue como mulher, de carne, osso, paixão, dor e história. Quero que me escute declamar Cecília. Percebo seu rosto triste e magro, seu lábio amargo, suas retinas vazias e indago: em que espelho ficou perdida a sua face? Eu me interesso pela resposta. Porque todos temos dias ruins. Dias pra querer atear fogo no mundo ou dormir por dois anos. Então, me perdoe, mas às vezes o insight genial dum filósofo do século passado cujo nome não sei pronunciar pouco me emociona naquele momento. Lá fora, pr’além das paredes anêmicas da sala de aula, existe uma vida, real e honesta, pra me ouriçar os pelos. precisamos, nós, ombro a ombro, acolher o arrepio. Aprender a deixar o sangue quente pulsar. Deixar que escorra pelos poros, que inunde a boca, que salte aos olhos. Deixar sentir. E entender que, eu e você, podemos sangrar. Empatia é isso, diria mamãe. Mas quem sou eu pra lhes ensinar alguma coisa? Deixo essa tarefa pra vida. Por enquanto, isso aqui é só mais uma opinião apaixonada, professor. Nada, senão, a confissão melancólica de quem descobriu, ainda na fibra da infância, que empatia não acha lugar nem no peito, quem dirá num Lattes.

Ilustração de Natalie Majolo. Originalmente publicado no Jornal do Campus, jornal produzido pelos alunos de Jornalismo da USP. 

Liz Dórea é baiana incurável, exilou-se na terra-da-garoa pra estudar jornalismo, já que nada sabe na vida, senão, palavrear. Faz verbo e fotografia como quem pudesse esquecer a saudade de casa. Mas, sabendo que falha, aceita o inverno, a melancolia e a gastrite de café porque não pode, sozinha, dinamitar a ilha de Manhattan.